Entre os guerreiros, que de longes terras vieram provar sua valentia no exército de Afonso VI, achavam-se militando dois príncipes, oriundos ambos da casa de Borgonha.
Raimundo e Henrique se chamavam estes.
A cada um deles deu afonso VI uma de suas filhas em casamento: - a Raimundo, D. Urraca; a Henrique, D. Teresa. Aquele confiou o governo do condado de Galiza; a este, o do condado portucalense.
Condado portucalense ou condado de Portucale era a denominação por que designava naquela época o território compreendido entre Douro e Minho.
Provinha-lhe o nome de uma antiga povoação (Portus Cale) fundada na margem do Douro em frente de outro lugarejo mais antigo (Cale) a que proximamente corresponderá hoje Vila Nova de Gaia.
D. Henrique de Borgonha, que em 1094 começou a governar o condado portucalense depois de haver casado com a filha bastarda de Afonso VI, era filho do duque Henrique de Borgonha e de sua mulher Sibila, (1) bisneto de Roberto (rei de França) e portanto descendente de Hugo Capeto.
Camões caiu inadvertidamente num engano quando escreveu:
“... Henrique, dizem que segundo
Filho de um rei de Hungria experimentado,
Portugal houve em sorte, que no mundo
Então não era ilustre nem prezado;
E para mais sinal de amor profundo
Quis o rei castelhano que casado
Com Teresa sua filha o conde fosse;
E com ela das terras tomou posse.”
(Lus. III, 25)
E na estância 28ª do mesmo canto continua a chamar-lhe húngaro:
“O forte e famoso húngaro extremado.”
Estava isto em harmonia com a tradição que mais geralmente vogava em Portugal acerca do conde no tempo em que o poeta viveu. Mas outras opiniões havia também. O próprio Camões o diz na estância 9ª do canto VIII:
“Nós húngaro o fazemos; porém nado
Crêem ser em Lotaríngia os estrangeiros.”
Efectivamente D. Henrique de Borgonha não era húngaro; francês, sim.
(1) Embora à partida não me propusesse fazer qualquer tipo de revisão ao texto transcrito, pois sai fora do alcance deste blog. O objectivo, recordo, seria apenas transcrever fragmentos de velhos escritos que abundam cá por casa. O eventual trabalho de exegese deixaria para os interessados. Contudo, o objecto que estou a transcrever está demasiado próximo daquilo que é a minha formação académica e daí que seja difícil resistir a algumas correcções, que procurarei reduzir ao mínimo.
A propósito do conde D. Henrique, as recentes investigações de genealogistas franceses renegam que Sibila fosse sua mãe. Era sim cunhada, pois esta era casada com o seu irmão Eudes. Assim, Henrique e Raimundo não eram primos, como diz a historiografia tradicional. Eram “apenas membros de duas famílias diferentes unidas pelo casamento” (José Mattoso). Ver “Dois Séculos de Vicissitudes Políticas”, História de Portugal, Vol II, Direcção de José Mattoso
Mano... a sua aula de História me comove... Me senti feliz sabendo como tudo começou ! Só não me senti contente sabendo que tenho sangue Mouro...
Um abração !
Daniel