setembro 21, 2003

D. Henrique de Borgonha

Entre os guerreiros, que de longes terras vieram provar sua valentia no exército de Afonso VI, achavam-se militando dois príncipes, oriundos ambos da casa de Borgonha.
Raimundo e Henrique se chamavam estes.
A cada um deles deu afonso VI uma de suas filhas em casamento: - a Raimundo, D. Urraca; a Henrique, D. Teresa. Aquele confiou o governo do condado de Galiza; a este, o do condado portucalense.
Condado portucalense ou condado de Portucale era a denominação por que designava naquela época o território compreendido entre Douro e Minho.
Provinha-lhe o nome de uma antiga povoação (Portus Cale) fundada na margem do Douro em frente de outro lugarejo mais antigo (Cale) a que proximamente corresponderá hoje Vila Nova de Gaia.
D. Henrique de Borgonha, que em 1094 começou a governar o condado portucalense depois de haver casado com a filha bastarda de Afonso VI, era filho do duque Henrique de Borgonha e de sua mulher Sibila, (1) bisneto de Roberto (rei de França) e portanto descendente de Hugo Capeto.
Camões caiu inadvertidamente num engano quando escreveu:

“... Henrique, dizem que segundo
Filho de um rei de Hungria experimentado,
Portugal houve em sorte, que no mundo
Então não era ilustre nem prezado;
E para mais sinal de amor profundo
Quis o rei castelhano que casado
Com Teresa sua filha o conde fosse;
E com ela das terras tomou posse.”

(Lus. III, 25)

E na estância 28ª do mesmo canto continua a chamar-lhe húngaro:

“O forte e famoso húngaro extremado.”

Estava isto em harmonia com a tradição que mais geralmente vogava em Portugal acerca do conde no tempo em que o poeta viveu. Mas outras opiniões havia também. O próprio Camões o diz na estância 9ª do canto VIII:

“Nós húngaro o fazemos; porém nado
Crêem ser em Lotaríngia os estrangeiros.”

Efectivamente D. Henrique de Borgonha não era húngaro; francês, sim.

(1) Embora à partida não me propusesse fazer qualquer tipo de revisão ao texto transcrito, pois sai fora do alcance deste blog. O objectivo, recordo, seria apenas transcrever fragmentos de velhos escritos que abundam cá por casa. O eventual trabalho de exegese deixaria para os interessados. Contudo, o objecto que estou a transcrever está demasiado próximo daquilo que é a minha formação académica e daí que seja difícil resistir a algumas correcções, que procurarei reduzir ao mínimo.
A propósito do conde D. Henrique, as recentes investigações de genealogistas franceses renegam que Sibila fosse sua mãe. Era sim cunhada, pois esta era casada com o seu irmão Eudes. Assim, Henrique e Raimundo não eram primos, como diz a historiografia tradicional. Eram “apenas membros de duas famílias diferentes unidas pelo casamento” (José Mattoso). Ver “Dois Séculos de Vicissitudes Políticas”, História de Portugal, Vol II, Direcção de José Mattoso

Publicado por xoao em setembro 21, 2003 07:01 AM
Comentários

Mano... a sua aula de História me comove... Me senti feliz sabendo como tudo começou ! Só não me senti contente sabendo que tenho sangue Mouro...
Um abração !
Daniel

Afixado por: Daniel Farias em setembro 21, 2003 03:23 PM