setembro 26, 2003

D. Afonso Henriques (3ª parte)

Desta arte o papa, que tinha o poder discricionário sobre os reis da terra, exaltando-os ou depondo-os a seu bel-prazer, aceitou o oferecimento de D. Afonso Henriques; - e, assinadas novas pazes entre os dois primos no convénio de Astorga em 1143, o rei de Leão reconhecia finalmente perante o legado pontifício o título de rei independente que o filho de D. Teresa havia assumido.
Estava solenemente quebrada a palavra dada pelo príncipe, quando se vira cercado no castelo de Guimarães.
Por seu lado Egas Moniz que ficara solene penhor do seu pupilo, apenas este faltando ao que prometera se havia rebelado contra a suserania de Afonso VII, resolveu dar um exemplo do que era a honradez leal e cavalheiresca daqueles tempos, exemplo que ficou imorredouro e para sempre admirado através dos séculos. Não lhe permitindo o espírito de nacionalidade e independência estorvar os planos briosos do moço príncipe, nem lhe sofrendo também a sua cavalheirosa lealdade que ficasse a mácula de um perjúrio a inodoar (sic) a turvar quiçá desairosamente o arrebol do novo reinado que despontava, - foi com sua mulher e seus filhos, descalço e de corda ao pescoço, entregar-se à disposição de Afonso VII, oferecendo-lhe a sua vida e de sua família como expiação da violada promessa.
(1)
O rei leonês, maravilhado perante o cavalheirismo e abnegação de tão nobre procedimento, reenviou-o em paz, depois de o haver acolhido com as mais significativas demonstrações de benevolência e deferência.
Estava definitivamente fundada a monarquia portuguesa.
D. Afonso Henriques, o primeiro do nome e o primeiro na ordem cronológica dos nossos reis, é pois o iniciador dessa galeria de monarcas sob cujo governo têm corrido os destinos de Portugal desde 1140 até hoje, - galeria em que os diversos soberanos se podem considerar distribuídos por quatro dinastias na forma seguinte:

(1) Actualmente contesta-se muito a veracidade do episódio de Egas Moniz. Este episódio só é relatado já no tempo de Afonso III, aliás, uma cópia de uma história que se contava antes, do conde galego Pedro Ansures. A atribuição a Egas Moniz desse episódio terá tido origem em João Soares Coelho, trovador da corte de Afonso III, descendente da família Egas Moniz, que certamente teve como intuito exaltar a sua própria linhagem. Ver “Dois Séculos de Vicissitudes Políticas”, História de Portugal, Vol II, Direcção de José Mattoso e também “Portugal Medieval – Novas Interpretações” do mesmo José Mattoso

Publicado por xoao em setembro 26, 2003 08:52 AM
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