D. Afonso, a quem a história deu o nome de Bolonhês por ter casado em França com D. Matilde (condessa de Bolonha), correu de lá a cingir a coroa que em Portugal lhe ofereciam, e poucas foram as povoações que de pronto o não reconheceram como senhor do reino.
Entre os raríssimos, porém, que se conservaram fieis a D. Sancho, apontam-se dois modelos insignes de lealdade que ficarão eternamente célebres através dos séculos.
Um deles, Martim de Freitas, que estava por alcaide ou governador do castelo de Coimbra, sujeitou-se às contingências de um apertado cerco, mas manteve-se defensor valoroso dos direitos de D. Sancho. E, quando lhe disseram ter finalmente falecido em Toledo aquele por cujos direitos pugnava, pediu um salvo-conduto e foi por seus próprios olhos certificar-se do que lhe asseveravam. Convencido agora de que não existia já aquele a quem até aí considerava único senhor legítimo do castelo, entregou então as chaves ao sucessor.
Com respeito a Fernando Rodrigues Pacheco, governador do castelo de Celorico, diz a lenda que durante o apertado assédio, a que as tropas do príncipe haviam sujeitado o alcaide, já na praça começavam a sentir-se os horrores da fome, e apesar disso Pacheco mantinha-se inabalável no seu firme propósito. Sucedera entretanto passar nos ares uma águia voando. Por acaso a águia ao esvoaçar por cima da fortaleza deixara cair entre os sitiados uma truta que levava no bico.
E Pacheco mandara oferecer a truta aos inimigos como regalo, fazendo-lhes indirectamente sentir por esta forma que no castelo havia farto abastecimento de víveres. Os sitiantes, ignorando a procedência da truta, calculando por ela quão longe estariam efectivamente os sitiados de padecer privações, e supondo portanto que prosseguir naquele desígnio seria simplesmente perder o tempo, resolveram levantar o cerco. Desta arte (diz a lenda) pôde o alcaide conservar-se irredutível no castelo em que fora posto por defensor. E só depois de falecer D. Sancho é que se prestou a reconhecer por monarca D. Afonso III.
Cerrada afinal na catedral de Toledo a tampa do sepulcro de D. Sancho II, - rei ilustrado mas desditoso, a quem deram o cognome de Capelo por se haver em tempos afiliado na ordem mendicante dos franciscanos, - D. Afonso III passou a governar sem oposição.