Conflitos tristíssimos eram estes de mão armada, suscitados por despeitos e ambições inerentes ao génio altivo e irrequieto dos revoltosos.
Assim se erguiam, esquecidos dos laços de sangue que os prendiam, o irmão contra o irmão, e o filho contra o pai!
Por fim de contas, estas deploráveis cenas de luta sanguinolenta acabavam sempre por se desdobrarem sobre elas as asas cândidas de um pacificador.
Era a própria rainha (filha de el-rei D. Pedro de Aragão), era a virtuosa Isabel com quem D. Dinis se desposara e que mais tarde a Igreja canonizou, era esta santa princesa quem conseguia sempre aplacar de parte a parte aquelas fúrias, insinuando-se como intermediária, e chegando mesmo por mais de uma vez a interpor-se no próprio campo da batalha aos dois exércitos rivais.
Reprimindo os abusos da nobreza, já na desmedida supremacia que esta pretendia assumir com respeito às prerrogativas régias, já nos injustos vexames com que ela se dispunha a oprimir o clero, D. Dinis sabia igualmente coarctar as ambições da Igreja. E enquanto o papa Clemente V, abolindo a ordem dos cavaleiros do Templo, se propunha lançar mão dos bens que estes possuíam em Portugal, o ilustre monarca tinha artes de iludir diplomaticamente o ambicioso intento do pontífice instituindo em 1319 a ordem de Cristo e transferindo para ela os próprios Templários com seus antigos bens e rendimentos.
No convento de Odivelas, que fundou, pode-se ver ainda hoje o moimento em que jazem as cinzas deste monarca notabilíssimo, a quem sucedeu seu filho D. Afonso IV cognominado o Bravo. E bravo foi nas duas acepções da palavra: valente e irascível.