De intrepidez e valentia deu ele significativa demonstração quando na memorável batalha do Salado ferida em 1340 se apresentou à frente de suas tropas auxiliando o genro (Afonso XI de Castela), a quem os Mouros de Granada reforçados pelos Muçulmanos de África haviam acometido com um formidável exército.
Em quanto ao seu génio assomado e bravio, dele dariam testemunho assaz as continuadas rebeliões que arvorou contra seu pai, quando mesmo não bastasse aquele episódio narrado por Duarte Nunes de Leão em pitorescas linhas de tocante ingenuidade, episódio que tanto ao vivo nos pinta os costumes daqueles tempos e que textualmente aqui transcrevemos modernizando-lhe apenas a ortografia.
“E nos começos do seu reinado, como ele era muito inclinado à caça e a monte, e o cargo de governar tão trabalhoso, descuidava-se algum tanto do governo e de ouvir as partes, de que havia alguns queixumes. Pelo que indo el-rei de Lisboa ao termo de Sintra à caça onde esteve perto de um mês, a tempo que tratava em conselho negócios de sobre o regimento do reino, vendo os do concelho quão mal se havia naqueles começos por uma leviandade, quando veio e tornou ao conselho, depois que ele falou o que passara na caça, um dos conselheiros por acordo de todos lhe disse: - Senhor, deveis de emendar a ordem que levais e lembrar-vos que nos sois dado por rei para nos regerdes e por isso vos damos nossos tributos e mantemos na honra em que estais, e vós tomais a caça por ofício e o governo de vosso reino por passatempo, sendo certo que Deus não vos há-de pedir conta dos porcos ou veados que não matastes, senão das partes que não ouviste e dos negócios de vossa obrigação que não despachastes, como agora fizestes, que estando no meio de coisa tão importante à república, deixastes o conselho em que creis tão necessário e foste à caça por tantos dias, e nós aqui ociosos esperando por vós! Levai outro caminho, senão... El-rei, que de sua condição era agastado e bravo, como tinha por sobrenome, ouvindo palavra tão insolente, respondeu muito indignado: - Senão?... Ao que todos os do conselho responderam: - Senão buscaremos rei que nos governe em justiça e não deixe de governar seus vassalos por andar após as bestas feras. A isto respondeu el-rei mais indignado: - Os meus me hão dizer a mim «senão»? a mim «senão»? – A vós (disseram eles) todas as vezes que fizerdes o que não deveis. El-rei se saiu do conselho mui irado e suspenso do que faria. Mas cuidando depois que lho diziam por seu serviço e por o que lhe convinha, teve-os por bons servidores.”