Grande monarca foi D. Afonso IV; e o seu reinado passaria por um dos mais brilhantes na história pátria, se contra ele não estivesse clamando o sangue da formosa e desventurada Inês de Castro.
O príncipe D. Pedro, que mais tarde veio a suceder na coroa, namorara-se apaixonadamente de uma gentil castelhana que viera como dama da infanta D. Constança, sua esposa. D. Inês de Castro se chamava; colo de garça lhe tinham posto por galante alcunha os que atentavam na sua elegância e formosura.
Por morte de D. Constança, diz-se que o príncipe viúvo desposara clandestinamente a dama dos seus afectos; pelo menos D. Pedro assim o asseverou.
O que é certo é que ruins conselheiros do rei, temendo verem-se suplantados pelos membros da família Castro no valimento régio quando o futuro monarca subisse ao trono, induziram D. Afonso a consentir no cobarde assassínio da inocente Inês sob pretexto de supostas conveniências políticas fundadas no projecto de nova aliança matrimonial para o príncipe.
D. Afonso, já um pouco alquebrado da sua primitiva energia, teve a fraqueza de ceder a tão pérfidos conselhos, e em 1355 foi a infeliz barbaramente apunhalada em Coimbra por Álvaro Gonçalves, Pero Coelho e Diogo Lopes Pacheco, três indignos cortesãos que obedecendo ao egoísmo torpe de suas paixões interesseiras não recuaram ante a perspectiva de vilipendiarem seus nomes no pelourinho da ignomínia.
D. Pedro, quando tal sucedeu, foi como se lhe rebentassem no coração todas as tempestades do oceano.
Em seu primeiro ímpeto de assanhada fera levantou contra o próprio pai guerra medonha de extermínio. Pouco, porém, sobreviveu D. Afonso IV à perpetração daquele nefando assassínio, porque dois anos depois, aos 67 de idade e 32 de reinado, abriam-se-lhe as portas da sé de Lisboa para lhe albergar o cadáver que lá repousa em monumento a par do de sua mulher D. Brites (filha de Sancho IV de castela).