A morte trágica de D. Inês parece ter sido na existência de D. Pedro uma dessas ocorrências fatais que, se alguma vez acertam de surgir no horizonte, ficam daí em diante exercendo em toda a vida, por uma impressão inextinguível, o mais decisivo influxo.
A feição excêntrica e sombria, que caracteriza o viver de D. Pedro I durante os dez anos do seu reinado, só pode explicar-se por um temperamento exageradamente melancólico tocando mesmo as raias da melanomania. E que a excruciante mágoa, que lhe ardia no coração como um ferro candente sobre carne viva, carecia de irromper em desafogos e explosões!
Logo que pôde haver à mão os assassinos da sua adorada Inês, tratou de exercer sobre eles estrondosa vingança. Em Santarém, defronte mesmo dos paços em que el-rei habitava, foi a execução de Gonçalves e Coelho; Pacheco lograra evadir-se-lhe. Com as janelas abertas e sentado à mesa do banquete, D. Pedro saboreava a acerba volúpia de estar presenciando as torturas infligidas aos dois criminosos, cujos corpos mandou reduzir a cinzas depois de lhes ter feito arrancar em vida os corações.
Cru lhe chamaram alguns por este ferino requinte de atrocidade.
Justiceiro o cognominam outros pela austera rectidão de seus juízos e pelo desvelo com que tomou a peito zelar a administração da justiça.
Para aqueles que chegaram pela primeira vez a este blog, esta é a transcrição de uma História de Portugal, da colecção Biblioteca do Povo e das Escolas; editor David Corazzi, Lisboa, 1881