outubro 12, 2003

D. Pedro (2ª parte)

Dir-se-ia que, faltando-lhe de repente o estremecido ídolo de seus amores, D. Pedro carecera de preencher aquele enorme vácuo, concentrando toda a exuberante vitalidade da sua alma e do seu coração, toda a frenética e febril actividade do seu espírito, em consagrar-se e devotar-se ao bem estar do seu povo!
Inexorável para com os nobres e para com o clero, D. Pedro não conhecia distinção de classes quando se tratava de castigar delitos.
Onde quer que surgissem sintomas de podridão, tratava logo de atar-lhe o progresso cauterizando sem piedade nem dó a parte gangrenada.
Confraternizando e convivendo a miúdo com as classes populares, estudava-lhes as necessidades e cuidava em provê-las de remédio quanto em suas posses estivesse.
Desta arte logrou ele robustecer cada vez mais o prestígio da autoridade real, de cujas prerrogativas se mostrou empenhadamente zeloso.
Afinal o cadáver de D. Inês transportado em 1860 com desusadas pompas para um riquíssimo túmulo de arrendados lavores, que no mosteiro de Alcobaça el-rei D. Pedro lhe mandou erguer, depois de a haver solenemente declarado por sua legítima esposa, apenas esperou sete anos que no mausoléu fronteiro viesse a repousar também o corpo inanimado daquele para quem os loiros cabelos da formosíssima dama tinham sido o mais grato enlevo da sua existência.
Por sua parte o povo, em cuja memória se conservou tradicionalmente por longo tempo como locução proverbial a justiça de el-rei D. Pedro, o povo agora derramava prantos sentidos e saudosos no funeral do monarca, como se um pressentimento secreto lhe deixasse antever quão diferente ia correr-lhe o destino sob o ceptro do príncipe herdeiro.

Publicado por xoao em outubro 12, 2003 09:19 AM
Comentários