Enquanto se não decidiu a questão da sucessão, ficou D. Leonor Teles regente do reino.
A seu lado erguia-se vaidosa e risonha a figura de João Fernandes Andeiro, fidalgo que de Galiza em tempos viera oferecer seus serviços ao defunto rei D. Fernando, e cujas criminosas relações com a rainha tinham contribuído para ainda mais escandalizar e indispor contra ela as classes populares.
Estas sentindo já palpitar-lhes no seio o instinto da nacionalidade, agregaram-se em torno do mestre de Aviz, D. João (filho bastardo de el-rei D. Pedro I e de D. Teresa Lourença), o qual apunhalando por suas próprias mãos nos paços de S. Martinho o valido da rainha adúltera, acabou por ser aclamado pelo povo de Lisboa como restaurador da liberdade e defensor do reino.
Delimitados agora os campos, seguia-se o travar da luta.
D. Leonor retirava-se para Alenquer, fugindo aos tumultos da capital, esperançada em que o rei de Castela viesse desafrontá-la e simultaneamente reivindicar os direitos da esposa, - enquanto a maioria da nobreza se mostrava também inclinada para D. Beatriz e antepunha ao patriotismo orgulhos e despeitos, sujeitando-se a ver a nacionalidade portuguesa absorvida pela de Castela, contanto que se não curvasse à supremacia do mestre de Aviz.
Este esperou os resultados em Lisboa, onde breve o marido de D. Beatriz lhe veio por cerco.
Lisboa resistiu corajosamente, e o rei castelhano teve de levantar o sítio em Setembro de 1384, ao passo que a batalha dos Atoleiros ganha brilhantemente no Alentejo por D. Nuno Álvares Pereira contra as tropas castelhanas simbolizava o primeiro passo na senda das vitórias em prol do mestre de Aviz.
Seguiram-se as cortes de Coimbra, onde a eloquência do célebre jurisconsulto João das Regras levou a assembleia a decidir que a coroa pertencia por direito àquele, a quem as turbas proclamavam defensor do reino, e o mestre de Aviz passou a ser aclamado rei sob o nome de D. João I.
Para os recém chegados a este blog, esta é a transcrição de uma História de Portugal, da colecção Biblioteca do Povo e das Escolas; editor David Corazzi, Lisboa, 1881