
Subia definitivamente ao trono o vulto mais importante desta dinastia, - o mais conspícuo talvez mesmo na série toda dos reis de Portugal.
E efectivamente, se D. João I nos encanta como o tipo cavalheiresco do paladino, seu bisneto D. João II maravilha-nos como o tipo grandioso do político consumado; um deles poderá ser – aurora que desponta coroada de risonhas esperanças; o outro é já o sol esplêndido em pleno meio-dia com toda a sua vivificante magnificência. Andou a história acertadamente chamando a el-rei D. João II o Príncipe perfeito.
A energia com que tratou de fazer vergar a indócil prosápia dos nobres, - a indomável coragem com que afrontou seus próprios parentes que contra ele conspiravam, tais como o duque de Bragança (a quem mandou degolar na praça de Évora) e D. Diogo duque de Viseu, seu primo e cunhado, a quem o próprio monarca apunhalou nos paços de Setúbal, - finalmente a habilidade táctica com que, derrubando os privilégios da nobreza, centralizou na coroa a autoridade suprema, - tudo isto faz de D. João II um príncipe excepcional, e um vulto verdadeiramente importantíssimo.
Política hábil, de vistas sagazes, e penetrantes, D. João II, quando Castela, expulsava ineptamente do seu território os judeus perseguidos pela intolerância da Inquisição, tinha o bom senso de os acolher benevolamente, como quem sabiamente pensava que acolhia com eles o capital, a ciência, as artes, a indústria, o trabalho.
E, se há quem deva verdadeiramente aureolar-se com a glória de haver dado todo o alcance e desenvolvimento às empresas marítimas inauguradas pelo infante D. Henrique, este foi sem contestação alguma D. João II.
Para os recém chegados a este blog, esta é a transcrição de uma História de Portugal, da colecção Biblioteca do Povo e das Escolas; editor David Corazzi, Lisboa, 1881