novembro 13, 2003

D. João III (1ª parte)

Figura turva e sombria, D. João III destaca-se com sinistro negrume de entre os precedentes vultos da dinastia de Avis. Dir-se-ia o abutre após um bando de águias! Quando outra coisa não houvesse para tristemente assinalar-lhe o reinado, bastava o reflexo das fogueiras da Inquisição autorizadas a instâncias suas em Portugal por uma bula pontifícia no ano de 1537. A par disto, para o país que no reinado precedente atingira o apogeu da grandeza, começava a soar já a hora da declinação. Na Índia o heroísmo cedia o lugar à corrupção e à torpeza. Homens como o vice-rei D. João de Castro que empenhassem os cabelos da barba por manterem encravadas na coroa portuguesa aquelas pérolas orientais e que terminassem por falecer pobres, pobríssimos, faltando-lhes até uma simples galinha, de que lhes preparassem um caldo no leito da morte, raríssimos eram. A honradez e abnegação trocavam-se pela ambição e pela doblez, pela cobiça sôfrega e insaciável. Governadores e vice-reis tratavam geralmente de praticar violências e de locupletar-se; a nada mais atendiam. Breve se lhe sentiria o resultado. Acabaríamos afinal por perder a Índia, que tanto esforço nos havia custado. Foi numa destas situações melindrosas que el-rei recorreu à provada energia de Vasco da Gama, como competentíssimo para atalhar tão grandes males; e foi essa a derradeira expedição que ele realizou à Índia, donde não mais voltou porque lá faleceu, conforme já numa das páginas atrás ficou dito.

Publicado por xoao em novembro 13, 2003 05:29 PM
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