D. Henrique, para quem a história nenhum outro cognome encontrou senão o de Casto, era o único filho que restava do segundo matrimónio de el-rei D. Manuel. Pesavam-lhe já sobre a fronte as cãs da senectude quando recebeu o melindroso encargo de acudir às desgraças da pátria. Alquebrado, irresoluto, decrépito, mas jesuíta de corpo e alma, propenso mais que tudo à política de Castela, o cardeal-rei serviu, no seu curto reinado de pouco mais de um ano, unicamente para estabelecer a Inquisição em Évora e... transmitir à dinastia filipina o ceptro que suas mãos trémulas mal sabiam segurar!
Efectivamente, quando em 31 de Janeiro de 1580 falecia em Almeirim este simulacro de rei, este carunchoso membro da dinastia de Avis que ia afinal também por sua vez descansar no carneiro régio do mosteiro de Belém a par de seus três antecessores, ficavam por governadores do reino cinco degenerados portugueses para quem constituiu suprema lei a vontade ambiciosa de Filipe II de Castela. Foram eles o arcebispo de Lisboa, Francisco de Sá, D. João Telo de Menezes, Diogo Lopes de Sousa e à frente de todos (o que mais pasma, o que mais dói!) D. João de Mascarenhas que em tempo de el-rei D. João III tão heróicos feitos havia praticado na Índia defendendo a fortaleza de Diu contra o assédio dos Turcos.
Para os recém chegados a este blog, esta é a transcrição de uma História de Portugal, da colecção Biblioteca do Povo e das Escolas; editor David Corazzi, Lisboa, 1881
Publicado por xoao em novembro 17, 2003 06:07 PM