No meio deste tumultuoso embate o povo assistia consternado mas inerte às calamidades da pátria. Arredado da pública administração pela política centralizadora de D. João II, que todo o seu empenho concentrara em fazer da realeza o poder sumo e absoluto, o povo assistia quase como comparsa às complicadas questões que se debatiam.
E quando D. António, aclamado rei em Santarém, fazia em Lisboa a sua entrada triunfante no meio do entusiasmo com que o festejavam, esse entusiasmo podia comparar-se bem a um fogo de palha que breve havia de esmorecer e extinguir-se. Não era já aquela plêiade heróica de ânimos denodados que três séculos antes defendiam a todo transe o mestre de Avis e com ele a independência da pátria. O limitado grupo de patriotas, que viam no pendão do prior do Crato o símbolo sagrado da autonomia portuguesa, teve de ceder ante o numeroso exército que o duque de Alba trouxe de Espanha para na ponte de Alcântara em desigual combate lhes esmagar brutalmente de vez seus brios e suas justíssimas aspirações. Em 25 de Agosto de 1580 consumava-se essa escandalosa transgressão do direito das gentes; carnificina odiosa lhe deveremos com mais razão chamar do que combate.