fevereiro 05, 2004

Em defesa de Barjona de Freitas (I)

Senhor redactor. - Quisera eu ser o último e nunca o primeiro a entrar num novo caminho, que há alguns dias aguarda a imprensa inteligente, proba e independente.
Todavia a razão fala mais alto que o coração, e eu não podia escravizar à minha vontade um dever, que me impunha a minha honra.
É uma explicação a três dos meus mestres, uma satisfação ao público e os mais vivos protestos de um reconhecimento eterno a todo o corpo académico, de que me prezo ser membro.
O dia 29 de maio era esperado ansiosamente por toda a cidade de Coimbra. O veredictum, que a Faculdade de Direito tinha de pronunciar então, ou devia ser a confirmação revoltante de uma infâmia, que se lhe atribuía, ou um desmentido solene.
E o público tergiversava. E tinha razão.
Eram duas horas da tarde, creio eu, quando aquela faculdade ia decidir da aprovação ou reprovação dos candidatos às cadeias vagas da mesma faculdade. Mui respeitável sem dúvida era o concurso de espectadores, que se achava na Sala dos Capelos. Além do imenso número de académicos, nunca os doutores se viram tão ricos de talentos nem tão brilhantemente assistidos. As faculdades de Medicina, Filosofia e Matemática estavam ali representadas por todas as suas inteligências superiores. O silêncio respeitoso com que se ouvia o senhor Augusto César Barjona de Freitas era demasiado eloquente e traduzia as intenções de tão numeroso auditório. Segredava-se em diversas partes que a Faculdade de Direito menosprezaria a sua dignidade para cevar uma vingança mesquinha contra S. Sª, e que nem o seu talento, nem os seus conhecimentos, nem a opinião pública lhe fariam vacilar o pulso.
Não o acreditava eu porém, e creio que a maior parte da academia repelia com desprezo tão revoltante baixeza, porque as grandes cobardias são apenas concebíveis para os muito cobardes; enganava-me. Aqueles períodos sonoros, graves eloquentes e ao mesmo tempo tão impregnados dum agudo ressentimento por uma injustiça, que se havia feito a S. S.ª, falavam muito aos meus dezoito anos, mas eram impotentes contra o gelo de uma cabeleira branca, que escondia um cálculo infame.
Procede-se enfim á votação, e o senhor doutor Barjona aparece reprovado no merecimento absoluto!!!”

Publicado por xoao em fevereiro 5, 2004 11:02 PM
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