Amigo,
Não me culpe pela falta de resposta à sua última carta, que me obrigava a agradecer-lhe expressões afectuosas, e prometidos obséquios. Tem-me corrido cortada de embaraços a vida.
O contentamento do coração não basta. Reluto sempre contra a conspiração desta gente que me cava abismos adiante de todos os passos. Quer um traço da vilania destes cafres? Andou uma comissão ad hoc por portas, pedindo aos subscritores do Mundo-Elegante que se despedissem. A intenção é cortar-me os recursos que me provinha daquele jornal.
Querem render a praça pela penúria, e eu por fim espero, parodiando o alcaide de Coimbra, enviar-lhe não uma truta, mas uma... porra. Desculpe o arredondamento do período, que é menos decente que eufónico.
Tenho, entretanto, escrito algumas tiras do Filosófico, na esperança de que o meu amigo estará no seu propósito.
Segundo me dissi, deve estar brevemente no Porto. Então lhe contarei os sucessos desta penosa existência, que ofereço aos infelizes para que se consolem.
Goze as venturas do Ermo, e creia que os maus momentos da solidão são mais saborosos que os melhores deste viver em que a morte se afigura uma consoladora perspectiva.
Do seu verdadeiro amigo
Camilo Castelo Branco
Publicado por xoao em fevereiro 17, 2004 03:06 PM