março 23, 2004

Discursos parlamentares (II)

Eu sou dos que neste momento sentem júbilo, e não posso sufocá-lo na espontaneidade do meu desafogo, agora que, pela primeira vez, me cabe a palavra depois que os negócios públicos sentiram a sua marcha dirigidos pela administração actual. Aos gerais aplausos da câmara e do país, ao sincero estremecimento das suas mais desinteressadas adesões diante das altas e imensas responsabilidades que lhe impunha essa tão pronta e tão espontãnea universalidade de apoios, vai o Governo respondendo brilhantemente, levando já na longada da sua carreira as palmas de três grandes vitórias já quase de todo conquistadas!
Diante da expectação pública a primeira voz que se ergueu foi a do sr. Ministro da Fazenda. Ardente e apaixonada, essa voz alevantou nos fastos da eloquência três discursos, que serão sempre três monumentos de defesa parlamentar. Repetiram-se os aplausos públicos: repetiram, por mais que queira negá-lo lá fora a insídia e a obsecação dos espíritos; e repetiram-se, não porque esses discursos defendiam simplesmente um contrato ou um expediente financeiro, aliás conveniente e oportuno, mas principalmente, e muito principalmente, porque neles vinha desenvolvido um largo programa de reformas e de economias, reformas e economias instantemente reclamadas pela ansiedade pública; e porque esse programa não parecia uma promessa simulada, mas um propósito deliberado e firme no ânimo do nobre ministro, aos que ouviram a energia cívica com que s. ex.ª falou nesse momentos ao seu país; repetiram, porque o ministro da Fazenda correu ao encontro da vontade geral , e do anseio unânime de todos os homens públicos e particulares da sua pátria, e prometeu, prometeu-o, inflamado nas mais arrebatadas inspirações do seu patriotismo, como que forçado pelas longas lições da sua experiência e da sua observação, prometeu o que era única e essencial vontade de todos, reformar, melhorar, mondar e acrescentar, regularizar e moralizar a administração pública das nossas finanças!
Em seguida escutou o país a voz do sr. Conde de Castro. E como se s. ex. Quisesse fina e delicadamente provar-nos que a sizudez prematura dos homens novos, que o rodeavam no poder, não tolhia nele, nos seus mais longos e avançados anos, as suas ardentes aspirações de progreso, ergueu-a em favor de uma das causas mais populares da sua época, esmagando ao mesmo tempo com o seu braço senil, mas vigoroso e enérgico, um privilégio velho e odiento. Foi-se àquela barra infamada de naufrágios, como aqui disse o sr. Fontes Pereira de Melo em frase tão elegante, e tão enérgica ao mesmo tempo, e ainda tão melancólica, e mais do que tudo tão clássica e tão portugesa de lei.

O sr. Tomás Ribeiro: - Apoiado, apoiado.

(Continua...)

Publicado por xoao em março 23, 2004 03:23 PM
Comentários