Nas suas tendências cavaleirosas mas quixotescas D. Afonso concebeu ambiciosamente a ideia de reunir em torno de sua cabeça com a coroa de Portugal a de Castela.
Falecera o rei castelhano Henrique IV, que fora casado com a princesa D. Joana (uma das irmãs de D. Afonso V de Portugal), e que de seu consórcio tivera apenas uma filha. D. Afonso V, viúvo já por essa época, havia contraído esponsais com sua sobrinha e tratou de sustentar-lhe os direitos, quando em Castela se suscitaram discórdias a propósito da sucessão.
Se por um lado, porém, a infanta castelhana contava a seu favor um pequeno partido, a maioria dos votos inclinava-se para D. Isabel, irmã do rei defunto e casada com D. Fernando de Aragão.
D. Afonso V teve a louca imprudência de intrometer-se nessa luta, comprometendo desairosamente a dignidade do nosso país, porquanto na célebre batalha de Toro, que em 1476 se feriu entre os portugueses e os defensores de D. Isabel, - apesar dos prodígios de valor executados pelo príncipe D. João (filho de Afonso V) que por seu lado se pode dizer ter ficado vitorioso, - as hostes que pelejavam sob o directo comando do monarca português foram tristemente rechaçadas pelos Castelhanos.
Desconsolado perante o mau êxito desta empresa D. Afonso dirigiu-se para França a solicitar o auxílio de Luís XI, que o burlou deixando-lhe aliás conceber lisojeiras esperanças. Afinal, porém, o rei português, vendo que o vulpino príncipe não passava de boas palavras e lhas não convertia em obras, desanimou por tal forma que resolveu abdicar a coroa em seu filho e partir para a Terra Santa.
D. joão chegou, portanto, a ser aclamado rei em 1477; mas pouco depois seu pai, com a leviandade que o caracterizava, arrependia-se do que tinha praticado e voltava para o reino a assumir novamente as rédeas do governo, rédeas que pouco tempo mais veio a segurar porque faleceu em Sintra em 1481.
Africano o cognominou a história pelas proezas com que ilustrou o seu braço pugnando valorosamente nas regiões de além-mar e engastando novas pedrarias na coroa que herdara de seu pai. Alcacer-Ceguer tomada aos Mouros em 1457 e Arzila em 1472 constituíram-lhe na sua fase de conquistador dois padrões gloriosos. Por último a própria Tanger, ante a qual no reinado antecedente haviam sido infrutíferas as tentativas dos filhos de el-rei D. João I, - Tanger, a cuja primeira expedição anda tristemente anexa a história do cativeiro e do desastroso fim do infante D. Fernando, - Tanger acabou por vir acrescentar os domínios ultramarinos de Portugal.
Simultaneamente continuava sob o impulso do infante D. Henrique (tio de el-rei), que só em 1460 veio a falecer, a brilhante série das expedições marítimas. Nuno Tristão descobria o Cabo Branco e começava a exploração da costa da Senegambia; seguiam-se-lhe Dinis Dias e Álvaro Fernandes que avistavam a Serra Leoa; Diogo Gomes e António de Nola descobriam o arquipélago de Cabo Verde; Fernão Gomes conseguia chegar à costa da Mina; e por último, em 1470, João de Santarém e Pedro de Escobar desembarcavam nas ilhas de S. Tomé e Príncipe.
Os primeiros anos do novo reinado correram infelizmente retalhados por intrigas de ambições. Entre a rainha viuva (D. Leonor de Aragão) e seu cunhado, o infante D. Pedro, a quem as cortes conferiram a regencia do reino durante a menoridade do sobrinho, travou-se a luta do despeito e do ódio por parte de D. Leonor, luta que veio a terminar tragicamente quando, depois de D. Afonso V assumir as rédeas do governo, pérfidos conselheiros o desvairaram lançando-lhe caluniosamente no espírito infames suspeitas acerca das intenções do infante, e fazendo-lhe crer que este aspirava a nada menos que a esbulhá-lo da coroa. D. Afonso, como criança leviana, acreditou nos aleives que intrigantes cortesãos levantavam contra o respeitável carácter de seu honradíssimo tutor, de seu bondoso tio, de seu afectuoso sogro (D. Afonso era já nesse tempo casado com a filha do regente, D. Isabel). O resultado destes negros tramas foi morrer o duque de Coimbra (assim se intitulava D. Pedro) tristemente assassinado em 1449 num encontro que as tropas do rei tiveram com os homens de armas do duque, quando este, saia pacificamente de Coimbra em direcção a Lisboa onde se propunha lealmente desmascarar as insídias dos aleivosos que contra ele tramavam na sombra. E assim acabou às mãos da soldadesca um dos príncipes portugueses que com mais tino têm sabido empunhar as rédeas do governo!
Esta foi a maior mácula que enodou o reinado de D. Afonso V; e, apesar disso, não poderá taxar-se de perverso este príncipe. Leviano sim, leviano, era e pronunciadamente estouvado; a par disto, sobrava-lhe a intrepidez de ânimo e o espírito cavaleiroso, disposto sempre para tudo quanto significasse empresas aventurosas e belicosas.
Dos cinco filhos foi D. Duarte o primogenito, D. Duarte que mereceu pelas suas condições de letrado o cognome de Eloquente, D. Duarte que deixou como documento interessantíssimo da sua cultura literária dois livros por ele escritos: o “Leal Conselheiro” e o “Livro da Ensinança de Bem Cavalgar Toda a Sela”.
À ilharga de D. Duarte seus quatro irmãos desempenham todos, cada um por seu modo, um papel brilhantíssimo. D. Henrique é o iniciador dos descobrimentos e conquistas de além–mar. D. Fernando, cognominado o Infante Santo, constitui-se modelo inexcedível de abnegação pela pátria quando na jornada de Tanger contra os Mouros de África, sendo mal sucedidos os portugueses, se presta cavalheirosamente a ficar de refém como penhor e garantia de Ceuta, cuja restituição o inimigo exigia; lá falece em Fez vítima dos maus tratos dos Mouros; lá se fina inabalável na constância de seu heróico civismo, resignando-se a acabar nas masmorras mouriscas com tanto que Portugal não perca a importante praça de Ceuta. Cavalheiroso e fiel companheiro dos irmãos nos seus gloriosos empreendimentos é ainda o infante D. João, condestável do reino. Mártir como D. Fernando, finalmente, e escravo, como ele, do fiel cumprimento de seus deveres, surge-nos por último o vulto poético do infante D. Pedro, que tão tristemente devia acabar no reinado seguinte.
Curta e dolorosa correu a administração de D. Duarte. Para a enlutar foram de sobra o trágico fim do infante D. Fernando e a peste que assolou cruelmente o reino, peste de que o próprio monarca veio a falecer em Tomar.
Ainda assim, ficou o seu governo assinalado pela brilhante continuação do impulso uma vez dado na senda dos empreendimentos marítimos. Gil Eanes dobrando em 1434 o cabo Bojador e Afonso Gonçalves Baldaia descobrindo em 1436 o Rio do Ouro vinculam seus feitos notáveis ao curto reinado de el-rei D. Duarte. Por morte deste, sucedia-lhe na coroa um príncipe de menor idade, seu filho D. Afonso V.
Ceuta tomada pessoalmente pelo monarca aos Mouros em 1415 inaugura a fase das conquistas nas terras de além mar.
João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira reconhecendo em 1418 a ilha de Porto Santo e pouco depois a da Madeira, - ilhas que as nossas caravelas parece terem visitado já em tempo de el-rei D. Afonso IV, como consequência do benéfico impulso que D. Dinis havia dado à navegação, - abrem auspiciosamente o prólogo dessa arrojada odisseia que, aventurando-se pelas regiões do desconhecido, tinha de abranger o arquipélago dos Açores reconhecido em 1432 por Gonçalo Velho Cabral, mais tarde o de Cabo Verde e a costa ocidental da África, até dobrar-lhe com Bartolomeu Dias a ponta do extremo austral, e rasgar ovante com Vasco da Gama o caminho da Índia ou singrar para ocidente e descortinar com Pedro Alvares Cabral as terras encantadas de Santa Cruz.
À frente deste entusiástico movimento figura um dos próprios filhos do monarca, o infante D. Henrique, Governador da ordem de Cristo, D. Henrique utilizara-lhe os pingues rendimentos e aproveitara o ânimo aguerrido de seus cavaleiros para fundar em Sagres (na ponta do cabo de S. Vicente) uma escola pratica de navegação e levar a cabo através do Oceano a realização dos seus sonhos áureos.
No dia em que se cumpriam à risca 48 anos depois da célebre batalha de Aljubarrota, falecia el-rei D. João I. O mausoléu erguido na sumptuosa igreja da Batalha que ele próprio fundara para solenizar aquela brilhante vitória, arrecadava assim as cinzas do cavaleiresco príncipe, a quem o povo, com a acertada intuição que tantas vezes o caracteriza, cognominara – de boa memória. Veneranda ficou efectivamente no espírito e no coração de seus súbditos a memória daquele ínclito monarca.
Ficava, porém, para lhe continuar suas gloriosas tradições uma deslumbrante pleiade de infantes. Restavam-lhe da numerosa prole que havia brotado do seu consórcio com a rainha D. Filipa cinco filhos e uma filha.
D. Isabel se chamava a infanta e veio a ser um modelo de virtudes na corte de seu marido Filipe o Bom, duque de Borgonha.
Terminara a dinastia de Borgonha ou Afonsina inaugurada pelo prestígio militar em Arcos de Valdevez, e seguia-se a dinastia de Aviz ou dinastia Joanina fundada por vontade e iniciativa do povo, - o que significava de per si um grande passo dado no caminho das imunidades populares.
Depois a derrota dos castelhanos na batalha de Trancoso em Julho de 1385, e logo em seguida a gloriosa vitória de Aljubarrota em 14 de Agosto do mesmo ano, acabaram de consolidar a nova dinastia.
Quando mais tarde o condestável D. Nuno Álvares Pereira levava o seu arrojo ao ponto de internar-se em Castela, chegando mesmo a desbaratar o inimigo na aldeia de Valverde, a coroa portuguesa podia já dizer-se indisputavelmente segura na fronte de el-rei D. João I.
Segue-se agora para Portugal um período verdadeiramente cavaleiroso e deveras deslumbrante.
A corte de el-rei D. João I destaca-se como excepcional modelo entre todas as da Europa: - à ilharga do arrojado paladino, o vulto grava e austero da rainha D. Filipa (filha do duque de Lencastre); em torno destes uma formosa prole de príncipes como não é vulgar encontrar-se.
E a própria corte que espontaneamente se constitui brilhante núcleo dos famosos empreendimentos, com que a História pátria vai ilustrar-se.
Enquanto se não decidiu a questão da sucessão, ficou D. Leonor Teles regente do reino.
A seu lado erguia-se vaidosa e risonha a figura de João Fernandes Andeiro, fidalgo que de Galiza em tempos viera oferecer seus serviços ao defunto rei D. Fernando, e cujas criminosas relações com a rainha tinham contribuído para ainda mais escandalizar e indispor contra ela as classes populares.
Estas sentindo já palpitar-lhes no seio o instinto da nacionalidade, agregaram-se em torno do mestre de Aviz, D. João (filho bastardo de el-rei D. Pedro I e de D. Teresa Lourença), o qual apunhalando por suas próprias mãos nos paços de S. Martinho o valido da rainha adúltera, acabou por ser aclamado pelo povo de Lisboa como restaurador da liberdade e defensor do reino.
Delimitados agora os campos, seguia-se o travar da luta.
D. Leonor retirava-se para Alenquer, fugindo aos tumultos da capital, esperançada em que o rei de Castela viesse desafrontá-la e simultaneamente reivindicar os direitos da esposa, - enquanto a maioria da nobreza se mostrava também inclinada para D. Beatriz e antepunha ao patriotismo orgulhos e despeitos, sujeitando-se a ver a nacionalidade portuguesa absorvida pela de Castela, contanto que se não curvasse à supremacia do mestre de Aviz.
Este esperou os resultados em Lisboa, onde breve o marido de D. Beatriz lhe veio por cerco.
Lisboa resistiu corajosamente, e o rei castelhano teve de levantar o sítio em Setembro de 1384, ao passo que a batalha dos Atoleiros ganha brilhantemente no Alentejo por D. Nuno Álvares Pereira contra as tropas castelhanas simbolizava o primeiro passo na senda das vitórias em prol do mestre de Aviz.
Seguiram-se as cortes de Coimbra, onde a eloquência do célebre jurisconsulto João das Regras levou a assembleia a decidir que a coroa pertencia por direito àquele, a quem as turbas proclamavam defensor do reino, e o mestre de Aviz passou a ser aclamado rei sob o nome de D. João I.
Para os recém chegados a este blog, esta é a transcrição de uma História de Portugal, da colecção Biblioteca do Povo e das Escolas; editor David Corazzi, Lisboa, 1881
De 1369 a 1371 durou esta desgraçada luta, que afinal terminou depois de D. Fernando ter consumido nela os dinheiros públicos.
Nas pazes, que então fizera, ajustou-se que D. Fernando casaria com a filha do rei de Castela.
D. Fernando, porém, - que, aliás, já anteriormente havia prometido a mão de esposo à filha do rei de Aragão, - faltou, como da primeira vez, à fé prometida e foi casar em 1372 com D. Leonor Teles, esposa que era do fidalgo João Lourenço da Cunha, cujos laços conjugais el-rei teve artes de fazer anular.
Dos encantos fascinantes desta mulher astuciosa e fatal lhe proveio a ele toda a sua desgraça, e ao país a agitação constante em que se debateu.
Por um lado foram os tumultos da classe popular insurgindo-se em Lisboa contra o desonesto procedimento do monarca e obrigando este a fugir para Santarém, - tumultos que o génio vingativo de D. Leonor castigou depois com tremenda usura.
Por outro lado foram as novas desinteligências com Henrique de Trastamara, desafiadas ainda mais pela aliança que D. Fernando celebrou com o duque de Lencastre (pretendente à coroa de Castela), desinteligências que determinaram por gemer duas vezes o país sob os horrores da guerra, - primeiro em 1373 quando o rei castelhano veio pôr cerco a Lisboa, e por último em 1378 quando o conde de Cambridge se apresentou a socorrer-nos com o reforço dos ingleses, socorro calamitosamente assinalado pela devastação brutal com que estes nossos aliados iam a seu bel-prazer talando as nossas povoações e causando-nos desta arte um dano muito superior ao que os próprios castelhanos nos ocasionavam.
Falecendo afinal D. Fernando, cujos restos ficaram sepultados no convento de S. Francisco em Santarém, e não deixando por descendência legítima senão D. Beatriz que havia casado com el-rei D. João I de Castela, a agitação do reino, em vez de acalmar-se, redobrou.
D. Fernando que sucedeu no trono a seu pai, quando contava de idade 21 anos, nascera do consorcio de D. Pedro com a princesa D. Constança (filha do príncipe castelhano D. João Manuel).
A história, pondo-lhe o cognome de Formoso, dá-nos implicitamente a perceber que lhe não achou melhores requisitos para recomendá-lo à posteridade.
Deveu todavia Portugal a este monarca um certo impulso dado à navegação e ao comércio exterior.
Deveram-lhe igualmente Lisboa, Évora e Santarém, as fortes muralhas de que as cercou.
Se desapaixonadamente, porém, contrabalançarmos o que houve de proveitoso no seu reinado ao que houve de desastroso, chegaremos à triste conclusão de que os desastres levam grande primazia aos proveitos.
Seu pai soubera sempre com prudencial sisudez conservar-se alheio às pugnas entre Pedro o Cruel (de Castela) e Henrique de Trastamara.
D. Fernando empenhou-se desastradamente numa luta inglória contra o último daqueles dois príncipes, induzido pela inoportuna ambição de suceder a D. Pedro no trono de Castela.
Dir-se-ia que, faltando-lhe de repente o estremecido ídolo de seus amores, D. Pedro carecera de preencher aquele enorme vácuo, concentrando toda a exuberante vitalidade da sua alma e do seu coração, toda a frenética e febril actividade do seu espírito, em consagrar-se e devotar-se ao bem estar do seu povo!
Inexorável para com os nobres e para com o clero, D. Pedro não conhecia distinção de classes quando se tratava de castigar delitos.
Onde quer que surgissem sintomas de podridão, tratava logo de atar-lhe o progresso cauterizando sem piedade nem dó a parte gangrenada.
Confraternizando e convivendo a miúdo com as classes populares, estudava-lhes as necessidades e cuidava em provê-las de remédio quanto em suas posses estivesse.
Desta arte logrou ele robustecer cada vez mais o prestígio da autoridade real, de cujas prerrogativas se mostrou empenhadamente zeloso.
Afinal o cadáver de D. Inês transportado em 1860 com desusadas pompas para um riquíssimo túmulo de arrendados lavores, que no mosteiro de Alcobaça el-rei D. Pedro lhe mandou erguer, depois de a haver solenemente declarado por sua legítima esposa, apenas esperou sete anos que no mausoléu fronteiro viesse a repousar também o corpo inanimado daquele para quem os loiros cabelos da formosíssima dama tinham sido o mais grato enlevo da sua existência.
Por sua parte o povo, em cuja memória se conservou tradicionalmente por longo tempo como locução proverbial a justiça de el-rei D. Pedro, o povo agora derramava prantos sentidos e saudosos no funeral do monarca, como se um pressentimento secreto lhe deixasse antever quão diferente ia correr-lhe o destino sob o ceptro do príncipe herdeiro.
A morte trágica de D. Inês parece ter sido na existência de D. Pedro uma dessas ocorrências fatais que, se alguma vez acertam de surgir no horizonte, ficam daí em diante exercendo em toda a vida, por uma impressão inextinguível, o mais decisivo influxo.
A feição excêntrica e sombria, que caracteriza o viver de D. Pedro I durante os dez anos do seu reinado, só pode explicar-se por um temperamento exageradamente melancólico tocando mesmo as raias da melanomania. E que a excruciante mágoa, que lhe ardia no coração como um ferro candente sobre carne viva, carecia de irromper em desafogos e explosões!
Logo que pôde haver à mão os assassinos da sua adorada Inês, tratou de exercer sobre eles estrondosa vingança. Em Santarém, defronte mesmo dos paços em que el-rei habitava, foi a execução de Gonçalves e Coelho; Pacheco lograra evadir-se-lhe. Com as janelas abertas e sentado à mesa do banquete, D. Pedro saboreava a acerba volúpia de estar presenciando as torturas infligidas aos dois criminosos, cujos corpos mandou reduzir a cinzas depois de lhes ter feito arrancar em vida os corações.
Cru lhe chamaram alguns por este ferino requinte de atrocidade.
Justiceiro o cognominam outros pela austera rectidão de seus juízos e pelo desvelo com que tomou a peito zelar a administração da justiça.
Para aqueles que chegaram pela primeira vez a este blog, esta é a transcrição de uma História de Portugal, da colecção Biblioteca do Povo e das Escolas; editor David Corazzi, Lisboa, 1881
Grande monarca foi D. Afonso IV; e o seu reinado passaria por um dos mais brilhantes na história pátria, se contra ele não estivesse clamando o sangue da formosa e desventurada Inês de Castro.
O príncipe D. Pedro, que mais tarde veio a suceder na coroa, namorara-se apaixonadamente de uma gentil castelhana que viera como dama da infanta D. Constança, sua esposa. D. Inês de Castro se chamava; colo de garça lhe tinham posto por galante alcunha os que atentavam na sua elegância e formosura.
Por morte de D. Constança, diz-se que o príncipe viúvo desposara clandestinamente a dama dos seus afectos; pelo menos D. Pedro assim o asseverou.
O que é certo é que ruins conselheiros do rei, temendo verem-se suplantados pelos membros da família Castro no valimento régio quando o futuro monarca subisse ao trono, induziram D. Afonso a consentir no cobarde assassínio da inocente Inês sob pretexto de supostas conveniências políticas fundadas no projecto de nova aliança matrimonial para o príncipe.
D. Afonso, já um pouco alquebrado da sua primitiva energia, teve a fraqueza de ceder a tão pérfidos conselhos, e em 1355 foi a infeliz barbaramente apunhalada em Coimbra por Álvaro Gonçalves, Pero Coelho e Diogo Lopes Pacheco, três indignos cortesãos que obedecendo ao egoísmo torpe de suas paixões interesseiras não recuaram ante a perspectiva de vilipendiarem seus nomes no pelourinho da ignomínia.
D. Pedro, quando tal sucedeu, foi como se lhe rebentassem no coração todas as tempestades do oceano.
Em seu primeiro ímpeto de assanhada fera levantou contra o próprio pai guerra medonha de extermínio. Pouco, porém, sobreviveu D. Afonso IV à perpetração daquele nefando assassínio, porque dois anos depois, aos 67 de idade e 32 de reinado, abriam-se-lhe as portas da sé de Lisboa para lhe albergar o cadáver que lá repousa em monumento a par do de sua mulher D. Brites (filha de Sancho IV de castela).
De intrepidez e valentia deu ele significativa demonstração quando na memorável batalha do Salado ferida em 1340 se apresentou à frente de suas tropas auxiliando o genro (Afonso XI de Castela), a quem os Mouros de Granada reforçados pelos Muçulmanos de África haviam acometido com um formidável exército.
Em quanto ao seu génio assomado e bravio, dele dariam testemunho assaz as continuadas rebeliões que arvorou contra seu pai, quando mesmo não bastasse aquele episódio narrado por Duarte Nunes de Leão em pitorescas linhas de tocante ingenuidade, episódio que tanto ao vivo nos pinta os costumes daqueles tempos e que textualmente aqui transcrevemos modernizando-lhe apenas a ortografia.
“E nos começos do seu reinado, como ele era muito inclinado à caça e a monte, e o cargo de governar tão trabalhoso, descuidava-se algum tanto do governo e de ouvir as partes, de que havia alguns queixumes. Pelo que indo el-rei de Lisboa ao termo de Sintra à caça onde esteve perto de um mês, a tempo que tratava em conselho negócios de sobre o regimento do reino, vendo os do concelho quão mal se havia naqueles começos por uma leviandade, quando veio e tornou ao conselho, depois que ele falou o que passara na caça, um dos conselheiros por acordo de todos lhe disse: - Senhor, deveis de emendar a ordem que levais e lembrar-vos que nos sois dado por rei para nos regerdes e por isso vos damos nossos tributos e mantemos na honra em que estais, e vós tomais a caça por ofício e o governo de vosso reino por passatempo, sendo certo que Deus não vos há-de pedir conta dos porcos ou veados que não matastes, senão das partes que não ouviste e dos negócios de vossa obrigação que não despachastes, como agora fizestes, que estando no meio de coisa tão importante à república, deixastes o conselho em que creis tão necessário e foste à caça por tantos dias, e nós aqui ociosos esperando por vós! Levai outro caminho, senão... El-rei, que de sua condição era agastado e bravo, como tinha por sobrenome, ouvindo palavra tão insolente, respondeu muito indignado: - Senão?... Ao que todos os do conselho responderam: - Senão buscaremos rei que nos governe em justiça e não deixe de governar seus vassalos por andar após as bestas feras. A isto respondeu el-rei mais indignado: - Os meus me hão dizer a mim «senão»? a mim «senão»? – A vós (disseram eles) todas as vezes que fizerdes o que não deveis. El-rei se saiu do conselho mui irado e suspenso do que faria. Mas cuidando depois que lho diziam por seu serviço e por o que lhe convinha, teve-os por bons servidores.”
Conflitos tristíssimos eram estes de mão armada, suscitados por despeitos e ambições inerentes ao génio altivo e irrequieto dos revoltosos.
Assim se erguiam, esquecidos dos laços de sangue que os prendiam, o irmão contra o irmão, e o filho contra o pai!
Por fim de contas, estas deploráveis cenas de luta sanguinolenta acabavam sempre por se desdobrarem sobre elas as asas cândidas de um pacificador.
Era a própria rainha (filha de el-rei D. Pedro de Aragão), era a virtuosa Isabel com quem D. Dinis se desposara e que mais tarde a Igreja canonizou, era esta santa princesa quem conseguia sempre aplacar de parte a parte aquelas fúrias, insinuando-se como intermediária, e chegando mesmo por mais de uma vez a interpor-se no próprio campo da batalha aos dois exércitos rivais.
Reprimindo os abusos da nobreza, já na desmedida supremacia que esta pretendia assumir com respeito às prerrogativas régias, já nos injustos vexames com que ela se dispunha a oprimir o clero, D. Dinis sabia igualmente coarctar as ambições da Igreja. E enquanto o papa Clemente V, abolindo a ordem dos cavaleiros do Templo, se propunha lançar mão dos bens que estes possuíam em Portugal, o ilustre monarca tinha artes de iludir diplomaticamente o ambicioso intento do pontífice instituindo em 1319 a ordem de Cristo e transferindo para ela os próprios Templários com seus antigos bens e rendimentos.
No convento de Odivelas, que fundou, pode-se ver ainda hoje o moimento em que jazem as cinzas deste monarca notabilíssimo, a quem sucedeu seu filho D. Afonso IV cognominado o Bravo. E bravo foi nas duas acepções da palavra: valente e irascível.

Este foi D. Dinis, o Lavrador, assim cognominado pela imensa protecção que dispensou à agricultura.
Aí está ainda hoje o soberbíssimo pinhal de Leiria que ele mandou plantar, constituindo um padrão solene da sua glória imorredoura.
A par disto as letras deveram-lhe não somenos protecção.
Criando no ano de 1290 em Lisboa uma universidade que mais tarde (em 1307) transferiu para Coimbra, e cultivando pessoalmente as letras com esmero, a ponto de nos deixar um cancioneiro de sua composição, que realmente lhe dá direito a ser qualificado entre os mais célebres trovadores de Portugal, D. Dinis inaugurou uma era de verdadeira evolução no movimento intelectual do nosso país.
Simultaneamente a indústria, o comércio e a marinha encontravam nele mui desvelado protector.
D. Dinis é um digno continuador de el-rei D. Sancho I no tocante aos negócios da administração interna.
O rei Lavrador completa efectivamente por forma brilhante a obra do rei Povoador.
Pena foi que de espaço a espaço viessem perturbá-lo na sua laboriosa e prestantíssima tarefa de paz e civilização os desgraçados conflitos de família, primeiramente com seu irmão D. Afonso Sanches e mais tarde com seu próprio filho, aquele que um dia havia de suceder-lhe na coro sob nome de D. Afonso IV.
Mas o caso de D. Afonso III passar a segundas núpcias, tendo viva a primeira esposa, é que pareceu escandaloso ao pontífice. E em 1275 fulminou Gregório X a bula de excomunhão sobre o monarca português, lançando igualmente o interdito no reino, - interdito e excomunhão que só vieram a levantar-se depois de falecida D. Matilde.
De resto, só também depois de enviuvar é que D. Afonso resolveu consumar as segundas núpcias que projectara, - muito embora o intrépido vencedor das hostes agarenas não fosse homem a quem as iras pontifícias amedrontassem.
A este monarca deveu Portugal uma vigorosa iniciativa no tocante a promover a prosperidade do seu povo, já desenvolvendo quanto pôde o elemento agrícola, o industrial e o comercial, já concorrendo para que os municípios fossem pouco a pouco adquirindo importância na grande tarefa da pública administração. Assim, não só concedeu numerosíssimos forais, mas inclusivamente inaugurou nas cortes de Leiria celebradas em 1254 a praxe de convocar os procuradores dos municípios dando-lhes assento nessas assembleias onde até então só figurava a nobreza e o clero.
Afinal sobre os restos mortais daquele príncipe que o Mosteiro de Alcobaça tinha de reclamar, decorridos 31 anos de glorioso reinado, para lhes dar sepultura a par dos de D. Afonso II, que igualmente ali jaz, o povo derramava com razão sentidas lágrimas. Felizmente sucedia no trono outro príncipe, a cuja memória não menos gratidão deve o país.
E o seu maior feito de gloria consiste em haver expulsado definitivamente do Algarve o domínio mourisco – façanha brilhante que se realizou em 1249, - ficando daí por diante completamente ocupado e possuído pelos portugueses todo o território quanto de norte a sul se estendia desde a margem meridional do Minho até ao cabo de Santa Maria.
Ainda neste reinado continuaram as lutas contra o clero e contra a cúria pontifícia. Os bispos, não encontrando no monarca o instrumento dócil que pressupunham, começaram a hostilizá-lo apelando para Roma contra o firma propósito que D. Afonso III manifestava de não consentir a ingerência do clero nos negócios temporais.
Por outro lado o rei, divorciando-se de D. Matilde sob pretexto de esterilidade, resolveu passar a segundas núpcias ajustadas com D. Beatriz (filha bastarda de Afonso X, rei de Castela), - ajuste por que haviam terminado as contendas entre os dois Afonsos, provocadas pelos direitos que ambos invocavam à posse do Algarve. O rei português aduzira o seu direito de conquista; o castelhano invocava a doação que um dos valis mouriscos lhe fizera do território algarvio; daqui haviam brotado lutas entre os dois rivais; o projectado consórcio acabava com as rivalidades; a posse mansa e pacífica do Algarve, concedida pelo rei castelhano ao português, representava uma espécie de dote.
Para aqueles que chegaram pela primeira vez a este blog, esta é a transcrição de uma História de Portugal, da colecção Biblioteca do Povo e das Escolas; editor David Corazzi, Lisboa, 1881
D. Afonso, a quem a história deu o nome de Bolonhês por ter casado em França com D. Matilde (condessa de Bolonha), correu de lá a cingir a coroa que em Portugal lhe ofereciam, e poucas foram as povoações que de pronto o não reconheceram como senhor do reino.
Entre os raríssimos, porém, que se conservaram fieis a D. Sancho, apontam-se dois modelos insignes de lealdade que ficarão eternamente célebres através dos séculos.
Um deles, Martim de Freitas, que estava por alcaide ou governador do castelo de Coimbra, sujeitou-se às contingências de um apertado cerco, mas manteve-se defensor valoroso dos direitos de D. Sancho. E, quando lhe disseram ter finalmente falecido em Toledo aquele por cujos direitos pugnava, pediu um salvo-conduto e foi por seus próprios olhos certificar-se do que lhe asseveravam. Convencido agora de que não existia já aquele a quem até aí considerava único senhor legítimo do castelo, entregou então as chaves ao sucessor.
Com respeito a Fernando Rodrigues Pacheco, governador do castelo de Celorico, diz a lenda que durante o apertado assédio, a que as tropas do príncipe haviam sujeitado o alcaide, já na praça começavam a sentir-se os horrores da fome, e apesar disso Pacheco mantinha-se inabalável no seu firme propósito. Sucedera entretanto passar nos ares uma águia voando. Por acaso a águia ao esvoaçar por cima da fortaleza deixara cair entre os sitiados uma truta que levava no bico.
E Pacheco mandara oferecer a truta aos inimigos como regalo, fazendo-lhes indirectamente sentir por esta forma que no castelo havia farto abastecimento de víveres. Os sitiantes, ignorando a procedência da truta, calculando por ela quão longe estariam efectivamente os sitiados de padecer privações, e supondo portanto que prosseguir naquele desígnio seria simplesmente perder o tempo, resolveram levantar o cerco. Desta arte (diz a lenda) pôde o alcaide conservar-se irredutível no castelo em que fora posto por defensor. E só depois de falecer D. Sancho é que se prestou a reconhecer por monarca D. Afonso III.
Cerrada afinal na catedral de Toledo a tampa do sepulcro de D. Sancho II, - rei ilustrado mas desditoso, a quem deram o cognome de Capelo por se haver em tempos afiliado na ordem mendicante dos franciscanos, - D. Afonso III passou a governar sem oposição.
Achavam-se, pois, os ministros arcando com dificuldades insuperáveis, até que terminaram mesmo por ver-se obrigados a ausentar-se da corte e a largar a administração suprema dos negócios, perante a oposição e guerra viva que se lhes fazia.
Por seu lado o clero, vendo no monarca um elemento pouco próprio para lisonjear-lhe as pretensões, tratou de fomentar-lhe a queda, acabando por conseguir que no célebre concílio de Leão em 1245 o papa Inocêncio IV depusesse afinal do trono o desditoso rei.
Lá estavam Elvas e Aljustrel, Juromenha e Serpa, Mértola, Tavira e outras praças tomadas aos Mouros, atestando a bravura de D. Sancho e o seu empenho em continuar de certo modo as gloriosas tradições de seus predecessores com respeito a alargar os limites do reino a que presidia.
Mas de nada isso lhe servia para manter-lhe o prestígio, quando o supremo árbitro, o rei dos reis (o papa), se prestava a fulminá-lo do solo pontifício, obedecendo às sugestões daqueles que mais lhe convinha proteger.
Para contrabalançar a oposição do clero, poderia lembrar a nobreza, se esta não fosse também um elemento adverso ao monarca.
Nas empresas contra a mourisma, quando el-rei tinha corajosamente feito cintilar o elmo ao sol da vitória na vanguarda das suas hostes, ainda aquele ímpeto guerreiro excitava temporariamente o entusiasmo dos que o acompanhavam.
Mas terminada a campanha, e desvanecida a memória dos louros conquistados, o entusiasmo arrefecia, e o desgraçado monarca só encontrava nos nobres o desejo infrene de praticarem as mais violentas exacções sobre todo o reino com a agravante perspectiva de se revoltarem se D. Sancho tratasse de coarctar-lhes sua desmedida ambição.
Portanto clero e nobreza eram dois potentes colossos que o pobre rei tinha defronte de si a hostilizá-lo embora reciprocamente adversários.
D. Sancho e a rainha D. Mecia (uma formosa fidalga biscaínha, por quem o rei se perdera de amores a ponto de desposá-la) foram acabar seus dias no desterro expulsos do trono, - enquanto o partido clerical cifrava as suas esperanças todas em D. Afonso III, o novo monarca, irmão do rei deposto.