novembro 30, 2003

D. Afonso VI (1ª parte)

Foi sua mãe, a varonil rainha D. Luísa de Gusmão, quem briosamente sustentou as rédeas da governação pública. Esta tutela, porém, findava quando o rei entrasse na maioridade, e D. Afonso VI estava longe de corresponder aos encargos inerentes a um monarca sobretudo nas circunstâncias políticas daquela época. Afectado em tenros anos de uma paralisia, que parece ter-lhe deixado certas lesões orgânicas e fisiológicas, inepto e inapto para encarar com seriedade os deveres do cargo em que ia ser investido, comprazendo-se especialmente na companhia de criaturas da mais baixa ralé, com quem folgava em andar de noite pela capital praticando tropelias e arruaças, D. Afonso VI era verdadeiramente vergôntea do tronco ilustre em que se filiava.
E no meio de todas as suas loucuras o que há de inexplicável é ter ele aceitado por ministro e valido o conde de Castelo Melhor, político habilíssimo, sob cuja inteligente administração pôde Portugal afrontar briosamente os ataques contínuos das forças espanholas que não cessavam de disputar-nos este abençoado cantinho.

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novembro 29, 2003

D. João IV




A D. João IV chamaram o Restaurador. Sem possuir a energia de um grande rei, distinguiu-se ele entretanto pelo bom senso prático e tino prudencial com que soube presidir aos destinos do país durante os 16 anos do seu reinado; aceitando em condições críticas a coroa que os quarenta conjurados de 1640 lhe ofereciam, o fundador da dinastia brigantina contribuiu por grosso quinhão para a restauração da pátria. O que é para lastimar é que ao cerrar os olhos no travesseiro do túmulo lhe não ficasse por herdeiro o príncipe D. Teodósio, seu filho primogénito. Falecera, porém, de verdes anos, e antes de seu pai, este mancebo em quem tantas esperanças se concentravam. Por desgraça ia a coroa cair na cabeça do príncipe D. Afonso, que treze anos contava apenas quando seu pai baixou à sepultura.

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A Restauração (3ª parte)

Simultaneamente nos agravava ainda outro encargo de honra; era o de reconquistar algumas de nossas antigas possessões ultramarinas, que mãos estranhas nos haviam raptado durante o domínio filipino; tal era a parte setentrional do Brasil e o território de Angola, que se achava em poder dos holandeses. Constitui essa luta uma das páginas brilhantes da nossa história; Pernambuco sublevando-se em 1646 escreveu em estrofes imorredoiras uma epopeia gloriosa; oito anos depois a Holanda abandonava definitivamente as suas pretensões com respeito ao Brasil; em 1648 retomava-lhe Salvador Correia de Sá o território angolense.

Para os recém chegados a este blog, esta é a transcrição de uma História de Portugal, da colecção Biblioteca do Povo e das Escolas; editor David Corazzi, Lisboa, 1881

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novembro 28, 2003

A Restauração (2ª parte)

No 1º de Dezembro de 1640 dirigiam-se de súbito os quarenta conspiradores ao Terreiro do Paço, e aos gritos de – Viva D. João IV rei de Portugal! – conseguiam, por um destes arrancos milagrosos que só o amor da pátria inspira, desarmar a guarda do palácio, matar Miguel de Vasconcelos (o secretário do governo) e prender a duquesa de Mântua. Em breve aqueles quarenta patriotas se achavam secundados pela adesão de todo o povo não só na capital mas nas províncias. Raiava novamente esplêndido o sol da liberdade em Portugal. À voz da metrópole responderam também quase uníssonas as possessões ultramarinas.
O que envergonha é que no meio de tudo houve quem, aliás nascido em torrão português, não hesitou em tramar contra a autonomia da pátria. Mais de uma conspiração se organizou nesse nefando intento. Pagaram, porém, com a vida alguns daqueles sobre quem recaiu a tremenda acusação de tão odioso crime; tais foram, por exemplo, o duque de Caminha, o conde de Vila Real e o ministro Francisco de Lucena, que perderam a cabeça no patíbulo; ao arcebispo de Braga valeu-lhe a sua alta dignidade prelatícia para simplesmente ser condenado a cárcere perpétuo. Reprimidas pela energia do novo governo estas tentativas contra a liberdade da pátria, seguia-se preparar o país para a luta que infalivelmente havia de travar-se quando Filipe de Castela entendesse dever enviar-nos suas tropas a disputar a coroa que lhe arrebatavam. Não se fez efectivamente esperar a guerra. Mas dessa prolongada campanha só em 26 de Maio de 1644 é que veio a ferir-se a primeira acção importante; foi ela a batalha de Montijo ganha pelos portugueses sob o comando de Matias de Albuquerque.

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novembro 27, 2003

A Restauração (1ª parte)

Um estado assim de coisas é que não podia por muito tempo durar. Começavam os olhos dos portugueses a fixar-se no duque de Bragança, D. João, neto da duquesa D. Catarina, bisneto do infante D. Duarte (filho de el-rei D. Manuel), e portanto genuíno representante da dinastia de Avis. Um punhado de intrépidos patriotas, entre os quais figurava a flor da nossa fidalguia, propôs-se libertar a pátria do cativeiro que a subjugava. A alma desta arrojada conjuração era o Dr. João Pinto Ribeiro, por intermédio de quem os conjuradores se entendiam com o duque de Bragança. Tinha o duque génio um tanto indeciso, timorato e pouco adequado talvez para cometimentos desta natureza; foi, porém, a duquesa sua esposa, D. Luísa de Gusmão, filha dos duques de Medina-Sidonia, quem corajosamente o induziu a sair daquela perplexidade e a aceitar o posto de honra que a pátria lhe oferecia.

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novembro 26, 2003

D. Filipe III de Portugal

Herdou a coroa D. Filipe III (IV de Castela), filho do precedente e de sua esposa D. Margarida d’Austria (filha do arquiduque Carlos). Dos três Filipes foi este sem contestação o mais inepto; seria por isso que a história lhe dá o cognome de Grande? Há por vezes destas inconsequências inexplicáveis! Sob a política opressiva do conde-duque de Olivares, braço direito de el-rei e seu primeiro ministro, Portugal viu agravarem-se cada vez mais seus vexames. As nossas colónias, os nossos estabelecimentos de além-mar iam tristemente por água abaixo. Em 1622 perdíamos Ormuz: em 1624 tomavam-nos a Baía os Holandeses (que só no ano seguinte vieram a ser de lá expulsos, quase exclusivamente por esforço nosso); em 1630 tomavam-nos Pernambuco, e em 1637 S. Jorge da Mina; várias outras feitorias da África Ocidental seguiam destino idêntico; Mombaça passava para poder dos Cafres; as Molucas deixavam de ser possessão nossa; os soldados portugueses serviam só para ir combater por Castela em Flandres e na Itália; para cúmulo de escárnio o conde-duque de Olivares enviava-nos por governador uma mulher, a duquesa-viúva de Mântua, D. Margarida, com um português por secretário, Miguel de Vasconcelos, um português renegado, vendido de corpo e alma à política ominosa do conde-duque!

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novembro 25, 2003

D. Filipe II de Portugal

El-rei D. Filipe II de Portugal (III de Castela), a quem os cronistas deram o cognome de Pio, foi para nós mais odioso ainda que seu próprio pai. A Espanha não curava senão de explorar-nos e de pesar sobre nós ominosamente com toda a casta de gravames. Se nas nossas possessões pretendíamos desafrontar-nos contra os insultos dos ingleses e holandeses, tínhamos de buscar em nossos próprios recursos as forças com que resistíssemos. No Escorial o sepultaram também, como seu pai, quando este monarca veio a falecer em Madrid após 23 anos de reinado.

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novembro 24, 2003

D. Filipe I de Portugal (2ª parte)

Portugal tomava parte nos desastres de Espanha, mas não compartilhava as suas venturas. A armada invencível que D. Filipe num acesso de vaidosa espanholada mandou preparar contra Isabel de Inglaterra, e que veio a perecer destroçada pelas fúrias de um vendaval medonho, era em grande parte constituída por navios nossos. Os inimigos de Espanha tornavam-se nossos inimigos; holandeses e ingleses saqueavam-nos os nossos portos, e dispunham-se a roubar-nos as nossas possessões. Dezoito anos pesou sobre Portugal o governo intruso daquele que por seus actos odiosos e violentos mereceu em Flandres o característico epíteto de demónio do meio-dia. A adulação servil dos nossos cronistas deu-lhe o nome de Prudente. Jaz no convento do Escorial em Espanha e sucedeu-lhe um filho, por nome também D. Filipe, havido de seu consórcio com D. Ana (filha de Maximiliano, imperador de Austria).

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novembro 23, 2003

D. Filipe I de Portugal

D Filipe II de Castela e I de Portugal, foi pois o inaugurador da dinastia filipina entre nós. Com ele começa uma época desastrosa de usurpação e opressão que durou sessenta anos e abrange três reinados. Filho do rei de Espanha Carlos I (Carlos V de Alemanha) e de sua esposa D. Isabel (filha, como já dissemos, de el-rei D. Manuel), D. Filipe fundara ostensivamente no parentesco, mas realmente e sobretudo nas forças de que dispunha, suas pretensões à coroa portuguesa. Reconhecido soberano de Portugal pelas cortes de Tomar, a que ele próprio assistiu, D. Filipe jurou perante os seus novos súbditos guardar-lhes os antigos foros e isenções que desfrutavam, prometendo-lhe ainda muitas outras prerrogativas e imunidades. Tais promessas, porém, ficaram simplesmente em palavras! A opressão castelhana começou desde logo a fazer-se sentir sobre o nosso desventurado país.

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novembro 22, 2003

D. António

Ao prior do Crato, porém, não se apagavam de todo no desastre da ponte de Alcântara os últimos lampejos da esperança. Quis revoltar em seu favor as províncias do norte; quis por último continuar a resistência na ilha Terceira, que se lhe conservara fiel; conseguiu que a França lhe fornecesse uma esquadra; alcançou da Inglaterra uma expedição para coadjuvar-lhe as pretensões; tudo teve de ceder ante as desproporcionadas forças de el-rei de Castela! E D. António, o Malogrado, veio a falecer, já desiludido, em Paris, quando exactamente se completavam quinze anos e um dia depois daquele seu primeiro revés na ponte de Alcântara. Lá ficou sepultado em França, no convento grande dos franciscanos de Paris o cadáver deste desventurado português; o seu coração foi depositado no convento da Ave-Maria depois de recolhido a uma urna em cujo epitáfio puseram o título de rei; isso e algumas moedas que veio a cunhar, já hoje raras nas colecções numismáticas, eis os documentos que nos restam do seu efémero e disputadíssimo reinado.

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novembro 20, 2003

Camões




Jazia a pátria em luto. Luís de Camões, incomparável cantor das nossas glórias, fechando os olhos nas sombras do túmulo, aos 10 de Junho desse mesmo ano, quando já lhe não restavam esperanças de salvação naquele naufrágio tremendo em que tudo se afundava, murmurava num supremo arranco de desconsolo: - “Ao menos morro com a pátria!” Ele que fora o sol deslumbrantíssimo no meio daquelas refulgentes constelações em que se desatara a fase áurea da nossa literatura, encerrava o ciclo atirando com os Lusíadas ao mundo, para que a todo o tempo se soubesse e em todo o orbe quem havíamos sido e quanto havíamos valido.

A constante referência a Camões e o destaque que lhe é dado, nesta obra, é compreensível se olharmos à data de publicação (1881). No ano de 1880, tinham-se realizado as enormes comemorações do tricentenário da morte de Camões. Por este período, Camões tornou-se um herói, um símbolo da consciência nacional. Estas comemorações foram aproveitadas pelo movimento republicano e tiveram uma adesão popular fora do comum. Notícias da época falam de 200.000 participantes.
A própria editora desta História de Portugal (Corazzi) associou-se a estas comemorações, publicando uma edição de Os Lusíadas, com ilustrações de João Dantas (Nota do autor do blog).

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novembro 19, 2003

Crise dinástica (2ª parte)

No meio deste tumultuoso embate o povo assistia consternado mas inerte às calamidades da pátria. Arredado da pública administração pela política centralizadora de D. João II, que todo o seu empenho concentrara em fazer da realeza o poder sumo e absoluto, o povo assistia quase como comparsa às complicadas questões que se debatiam.
E quando D. António, aclamado rei em Santarém, fazia em Lisboa a sua entrada triunfante no meio do entusiasmo com que o festejavam, esse entusiasmo podia comparar-se bem a um fogo de palha que breve havia de esmorecer e extinguir-se. Não era já aquela plêiade heróica de ânimos denodados que três séculos antes defendiam a todo transe o mestre de Avis e com ele a independência da pátria. O limitado grupo de patriotas, que viam no pendão do prior do Crato o símbolo sagrado da autonomia portuguesa, teve de ceder ante o numeroso exército que o duque de Alba trouxe de Espanha para na ponte de Alcântara em desigual combate lhes esmagar brutalmente de vez seus brios e suas justíssimas aspirações. Em 25 de Agosto de 1580 consumava-se essa escandalosa transgressão do direito das gentes; carnificina odiosa lhe deveremos com mais razão chamar do que combate.

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novembro 18, 2003

Crise dinástica (1ª parte)

De resto, numerosa era a coorte dos que se apresentavam como aspirantes ao trono português. De encontro às pretensões do rei castelhano (que aduzia em seu favor ser neto de el-rei D. Manuel, cuja filha D. Isabel havia casado com Carlos V de Alemanha) figuravam os seguintes: D. António, prior do Crato (neto do mesmo D. Manuel por ser filho ilegítimo do infante D. Luís e de Violante Gomes); a duquesa de Bragança, D. Catarina filha do infante D. Duarte ( e neta, por conseguinte, também de D. Manuel); o duque de Parma (que por sua mãe, a infanta D. Maria, era igualmente neto do mesmo D. Manuel); o duque de Saboia (neto ainda de el-rei D. Manuel, por ser filho da princesa D. Beatriz de Portugal); e inclusivamente Catarina de Medicis (que pretendia impor-se como descendente de el-rei D. Afonso III e de sua primeira esposa a condessa de Bolonha D. Matilde). Por último, até o próprio pontífice arquitectava direitos ao trono vago, invocando como argumento a dignidade cardinalícia do defunto monarca.

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novembro 17, 2003

D. Henrique

D. Henrique, para quem a história nenhum outro cognome encontrou senão o de Casto, era o único filho que restava do segundo matrimónio de el-rei D. Manuel. Pesavam-lhe já sobre a fronte as cãs da senectude quando recebeu o melindroso encargo de acudir às desgraças da pátria. Alquebrado, irresoluto, decrépito, mas jesuíta de corpo e alma, propenso mais que tudo à política de Castela, o cardeal-rei serviu, no seu curto reinado de pouco mais de um ano, unicamente para estabelecer a Inquisição em Évora e... transmitir à dinastia filipina o ceptro que suas mãos trémulas mal sabiam segurar!
Efectivamente, quando em 31 de Janeiro de 1580 falecia em Almeirim este simulacro de rei, este carunchoso membro da dinastia de Avis que ia afinal também por sua vez descansar no carneiro régio do mosteiro de Belém a par de seus três antecessores, ficavam por governadores do reino cinco degenerados portugueses para quem constituiu suprema lei a vontade ambiciosa de Filipe II de Castela. Foram eles o arcebispo de Lisboa, Francisco de Sá, D. João Telo de Menezes, Diogo Lopes de Sousa e à frente de todos (o que mais pasma, o que mais dói!) D. João de Mascarenhas que em tempo de el-rei D. João III tão heróicos feitos havia praticado na Índia defendendo a fortaleza de Diu contra o assédio dos Turcos.

Para os recém chegados a este blog, esta é a transcrição de uma História de Portugal, da colecção Biblioteca do Povo e das Escolas; editor David Corazzi, Lisboa, 1881

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novembro 16, 2003

D. Sebastião (2ª parte)

D. Sebastião aspirava nada menos que a fundar um grande império à custa do território marroquino. A Índia ficava-lhe lá muito longe; os negócios daquelas remotas paragens prosseguiam, como no reinado precedente, um pouco arrevesados; vultos como D. Constantino de Bragança que encravou na coroa portuguesa mais uma valiosa pérola – Damão, - ou como D. Luís de Ataíde que sabia energicamente conjurar a tempestade quando os mais poderosos potentados da Índia se coligavam para sitiar Goa, Chaul e Chale, - vultos heróicos como esses tornavam-se cada vez mais raros! Seduzia-se, portanto de preferência o monarca ante aquela risonha perspectiva de vêr-se coroado imperador dos dois Algarves de aquém e de além-mar; era essa a ideia fixa daquele desvairado cérebro. Breve lhe proporcionou a fatalidade ensejo para a suspirada expedição. Dissenções íntimas entre dois príncipes marroquinos induziram D. Sebastião a realizar a jornada de África. Jornada foi essa em que a derrota de Alcácer-Quibir sepultou tristemente nas suas ruínas aos 4 de Agosto de 1578 o temerário monarca e juntamente com ele a flor da fidalguia e do exército português.
Era a independência nacional que expirava nos areais africanos. Faltava só quem a amortalhasse e a sepultasse! Para isso lá estava o cardeal D. Henrique. Ninguém mais talhado que ele para entoar-lhe funebremente o Requiem!

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novembro 15, 2003

D. Sebastião (1ª parte)


El-rei D. Sebastião, a quem puseram o cognome de Desejado, recebeu desde tenros anos em sua educação a influência do elemento jesuítico. Para isso bastavam de per si a tutela do cardeal seu tio e os conselhos do seu preceptor Luís Gonçalves da Câmara. Por aqui se explicam as suas tendências ascéticas; simultaneamente com estas desenvolviam-se-lhe devaneios guerreiros, quixotescos um pouco, mas exaltadíssimos e grandiosos.
O próprio cantor dos Lusíadas, inclusivamente, lhe incitava e estimulava esses brios fogosos e cavalheirescos ao dizer-lhe na dedicatória do seu imortal poema:


E vós, ó bem nascida segurança
Da Lusitana antiga liberdade,
E não menos certíssima esperança
De aumento da pequena Cristandade,
Vós, ó novo temor da Maura lança,
Maravilha fatal da nossa idade,
Dada ao mundo por Deus que todo mande,
Para do mundo a Deus dar parte grande,
...................................................
Vós, poderoso rei, cujo alto império
O sol logo em nascendo vê primeiro,
Vê-o também no meio do hemisfério
E, quando desce, o deixa derradeiro,
Vós, que esperamos jugo e vitupério,
Do torpe Ismaelita cavaleiro,
Do Turco oriental e do gentio
Que inda bebe o licor do santo rio....
...................................................

(Lus. I, 6 e 8)

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novembro 14, 2003

D. João III (2ª parte)

E todavia ainda os nossos navegadores prosseguiam incansáveis na tarefa de devassar as regiões ignotas da Ásia até aos confins do Extremo Oriente, coadjuvados pelos missionários entre os quais toma lugar excepcional e conspícuo o padre S. Francisco Xavier. Data de 1557 o estabelecimento dos portugueses em Macau; mas já muitos anos antes havíamos tomado pessoal conhecimento com a China e com as ilhas do Japão.
A par disto, porém, Portugal ia pouco a pouco abandonando aos Mouros de África algumas das praças que ali tanto sangue haviam custado em tempos e que representavam venerandos padrões de antigas glórias nossas. Sob pretexto de que era assaz dispendiosa a sua conservação, perdíamos desta arte Alcácer e Arzila, Safim e Azamor.
D. João III, a quem Portugal também deve a admissão da Companhia de Jesus, teve de sua esposa D. Catarina (filha de Filipe I de Castela) descendência numerosa mas pouco vividoira. Quem devera suceder-lhe, quando em 1557 as portas do mosteiro de Belém se escancararam a reclamar-lhe as cinzas, seria o príncipe D. Afonso (casado com D. Joana, filha do imperador Carlos V da Alemanha). Falecera, porém, esse presuntivo herdeiro aos 17 anos, deixando sua esposa grávida do príncipe D. Sebastião; e este foi quem veio a herdar a coroa de seu avô D. João III, quando apenas contava 5 anos de idade, sob a regência primeiramente de sua avó e mais tarde do cardeal D. Henrique (irmão do finado monarca).

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novembro 13, 2003

D. João III (1ª parte)

Figura turva e sombria, D. João III destaca-se com sinistro negrume de entre os precedentes vultos da dinastia de Avis. Dir-se-ia o abutre após um bando de águias! Quando outra coisa não houvesse para tristemente assinalar-lhe o reinado, bastava o reflexo das fogueiras da Inquisição autorizadas a instâncias suas em Portugal por uma bula pontifícia no ano de 1537. A par disto, para o país que no reinado precedente atingira o apogeu da grandeza, começava a soar já a hora da declinação. Na Índia o heroísmo cedia o lugar à corrupção e à torpeza. Homens como o vice-rei D. João de Castro que empenhassem os cabelos da barba por manterem encravadas na coroa portuguesa aquelas pérolas orientais e que terminassem por falecer pobres, pobríssimos, faltando-lhes até uma simples galinha, de que lhes preparassem um caldo no leito da morte, raríssimos eram. A honradez e abnegação trocavam-se pela ambição e pela doblez, pela cobiça sôfrega e insaciável. Governadores e vice-reis tratavam geralmente de praticar violências e de locupletar-se; a nada mais atendiam. Breve se lhe sentiria o resultado. Acabaríamos afinal por perder a Índia, que tanto esforço nos havia custado. Foi numa destas situações melindrosas que el-rei recorreu à provada energia de Vasco da Gama, como competentíssimo para atalhar tão grandes males; e foi essa a derradeira expedição que ele realizou à Índia, donde não mais voltou porque lá faleceu, conforme já numa das páginas atrás ficou dito.

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novembro 12, 2003

D. Manuel (3ª parte)

D. Manuel, depois de ter iluminado o mundo com o reflexo das suas glórias, veio a falecer nos paços da Ribeira em Lisboa com 52 anos de idade; jaz sepultado na igreja dos Jerónimos em Belém, templo de sumptuosa fabrica por ele mandada erguer como padrão comemorativo do descobrimento da Índia.
Durante o reinado deste monarca Portugal havia assumido o zénite de magnificência; sentia-se o sopro vivificante da Renascença nas artes e nas letras. A língua vazava-se definitivamente nos moldes correctos e puros do classicismo; a literatura inaugurava em Gil Vicente e Bernardim Ribeiro a fase áurea, em que breve tinham de surgir, quais meteoros luminosos, os nomes de Sá de Miranda e de António Ferreira, de João de Barros e de Luís de Camões – o primeiro dentre todos, o imortal poeta dos Lusíadas.
Três vezes casou D. Manuel; da primeira vez com D. Isabel (viúva do príncipe D. Afonso, filho de D. João II); da segunda vez com D. Maria (filha, como a antecedente, dos reis de Espanha, Fernando e Isabel a Católica); da terceira, finalmente, com D. Leonor (filha de Filipe I de Espanha).
Da numerosa prole, que teve, quem veio a suceder-lhe na coroa foi um filho de seu segundo matrimónio, D. João III, a quem a história por uma injustificável adulação pôs o cognome de Piedoso, devendo antes chamar-lhe o Fanático, o Jesuíta, o Inquisidor.

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novembro 11, 2003

Conquistadores e outros descobridores

O predomínio que os portugueses passavam a exercer na Índia, excitou prestes o ódio e as hostilidades dos comerciantes maometanos. Estes trataram de indispor os indígenas contra o pendão das quinas. Resultou daqui a necessidade de sustentar longa luta no Oriente, em que assaz se distinguiram valorosos capitães, entre os quais cumpre especialmente mencionar Duarte Pacheco, D. Francisco de Almeida e Afonso de Albuquerque.
Este último, sobretudo, conquistando Goa, Malaca e Ormuz, coroou dignamente a obra de Vasco da Gama porque firmou em três bases sólidas o domínio português com respeito a todo o Oriente. Aqueles três magníficos empórios, três jóias riquíssimas, que Afonso de Albuquerque engastava na coroa de Portugal, simbolizavam as três colunas gigantescas em que se baseava o deslumbrante império por ele fundado nas regiões asiáticas.
Ao norte de África prosseguiam igualmente as conquistas; D. João de Meneses e vários outros capitães opulentavam os domínios de Portugal com as praças de Azamor, Safim, Mazagão e Almedina.
Nem tão pouco afrouxava o afã dos descobrimentos: em 1501 descobrira Gaspar Corte-Real a ilha da Terra-Nova; no ano seguinte João da Nova, ao regressar da Índia, descobrira a ilha de Santa Helena; e outro tanto sucedeu em 1506 a Tristão da Cunha com respeito a Madagascar.

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novembro 10, 2003

Pedro Álvares Cabral

Pedro Álvares Cabral, porém, partindo para Oriente encontrou nas águas do Atlântico uma violentíssima tormenta, que dispersando-lhe os navios e desviando-lhos para ocidente o fez ir tocar nas costas da América Meridional. Terra de Santa Cruz chamou ele a essa região desconhecida, onde acidentalmente aportou em 24 de Abril de 1500.
Portugal acabava de inscrever nos seus fastos áureos as duas mais brilhantes conquistas marítimas do século XV: - o génio audaz de Vasco da Gama rasgara a estrada para a Índia; na eventualidade de uma tormenta alcançara Pedro Álvares Cabral o ensejo de descobrir o Brasil. Restava só aproveitar convenientemente estes dois mananciais de riqueza.

Para os recém chegados a este blog, esta é a transcrição de uma História de Portugal, da colecção Biblioteca do Povo e das Escolas; editor David Corazzi, Lisboa, 1881

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novembro 09, 2003

Vasco da Gama


Bartolomeu Dias, dobrando, no reinado precedente, o Cabo da Boa Esperança, tinha aberto o caminho transatlântico para a Índia.
Restava só que aparecesse quem lograsse percorrê-lo até ao termo final.
Este foi Vasco da Gama que aos 8 de Julho de 1497 saía da barra do Tejo com uma esquadrilha de quatro navios e em 20 de Maio de 1498 conseguia aportar em Calecut.
O ousado navegador acabava de ganhar para Portugal o riquíssimo território de todo o Oriente.
E, quando no ano seguinte regressou à pátria, encontrou a remunerá-lo das fadigas que sofrera o entusiasmo de seus conterrâneos e a gratidão de el-rei que o encheu de mercês e honrarias, tais como o tratamento de Dom (tanto para ele como para seus irmãos e descendentes), o título de conde da Vidigueira, a dignidade de almirante do mar das Índias, a faculdade de mandar vir em todas as armadas duzentos cruzados de fazenda com feitor seu, e finalmente, além de vários outros privilégios e tenças, a concessão de poder tomar o comando em qualquer armada que partisse para a Índia. Esta última circunstância rebate vitoriosamente a injusta acusação de ingrato que a maior parte dos historiadores lançam em rosto a D. Manuel com respeito ao descobridor da Índia. Para com outros seria o monarca ingrato, mas não para com Vasco da Gama. O privilégio, que lhe fora concedido de preferir a todos os outros capitães, no comando das armadas com destino à Índia, mostra assaz que, se expedições houve a cujo comando ele não presidiu, é porque o ilustre navegador declinou essa honra, e só em casos muito graves entendeu dever acudir com a sua excepcional energia, como sucedeu em 1524 (já no reinado de D. João III) ano em que o conde da Vidigueira partiu por terceira vez para a Índia, e lá veio a falecer em Cochim com 56 anos de idade, aos 25 de Dezembro de 1525. Não pode, pois, atribuir-se a ingratidão ou desconsideração do monarca para com quem tamanho serviço lhe havia prestado, mas antes a causas cuja natureza hoje nos escapa, a circunstância de ser Pedro Álvares Cabral o comandante da primeira esquadra que de Portugal saiu em direcção à Índia depois do regresso de Vasco da Gama.

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novembro 08, 2003

D. Manuel (2ª parte)

Ainda assim, D. Manuel merece louvores por ter sabido compreender e continuar a obra monumental de seu primo com respeito às empresas de além-mar.
Pena foi que não soubesse compreendê-lo e continuá-lo também no espírito de tolerância que D. João II tão sabiamente havia demonstrado!
A expulsão dos judeus em 1497, e a carnificina atroz dos cristãos-novos que Lisboa presenciou em 1506 promovida pelo influxo do intolerantismo fradesco sobre o fanatismo estúpido da plebe inepta (carnificina cujos promotores aliás el-rei mandou depois severamente castigar), são dois factos calamitosos que deslustram as pompas deste reinado, - tão glorioso, todavia, se o encararmos exclusivamente no campo dos descobrimentos e das conquistas.

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novembro 06, 2003

D. Manuel (1ª parte)

D. João II, porém, morria sem deixar descendentes legítimos. O príncipe D. Afonso, que se finara vitima de um desastre, caindo em Santarém de um cavalo abaixo, fora o único filho que el-rei tivera do seu consórcio com sua prima D. Leonor (filha do infante D. Fernando, duque de Viseu).
Quem pois o monarca designou por herdeiro do trono, e efectivamente lhe sucedeu, foi o duque de Beja, D. Manuel, seu primo e seu cunhado, irmão daquele mesmo duque de Viseu que ele outrora em Setúbal havia apunhalado.
A circunstância de cair a coroa, inesperadamente e contra todas as previsões, na fronte de D. Manuel (filho do duque de Viseu D. Fernando, e portanto sobrinho de D. Afonso V) justifica o epíteto de Afortunado ou Venturoso, com que a história o cognomina, - mais ainda que a brilhante série de descobrimentos com que seu reinado se ilustrou, porquanto as expedições de Vasco da Gama e de Pedro Álvares Cabral, representando os dois mais notáveis feitos na história marítima do nosso povo, devem antes considerar-se consequência necessária do impulso que D. João II imprimira à grande obra encetada pelo infante D. Henrique do que propriamente um acto da iniciativa de el-rei D. Manuel.

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novembro 03, 2003

D. João II (2ª parte)

A exploração da costa africana por Diogo Cão e Diogo de Azambuja, a excursão através de África por Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva em procura do misterioso e decantado Preste-João, e a expedição de Bartolomeu Dias que em 1487 chega a dobrar o Cabo das Tormentas, ao qual D. João II pôs depois o auspicioso nome de Cabo da Boa Esperança, - constituem por assim dizer a aurora refulgentíssima da nova era que ia encetar-se, o prólogo já de si deslumbrante do livro áureo que ia escrever-se.
A D. João II, para ser irrepreensivelmente completo, só uma coisa faltou: ter adivinhado Cristóvão Colombo.
Quando este insigne genovês se lhe apresentou a desenrolar-lhe o panorama tentador de seus brilhantes planos, D. João preferiu dar ouvidos aos cosmógrafos portugueses que taxavam de visionário o futuro descobridor da América. Nisto se lhe avantajou D. Isabel a Católica. “Empenharei (disse ela) as joias da minha coroa; mas o genovês há-de partir.” E o genovês partiu; e a Espanha alargava prodigiosamente a área de suas possessões com a vastidão de um novo mundo, que poderia ter pertencido a Portugal.
Aos 40 anos de idade expirou em Alvor el-rei D. João II depois de prolongado padecimento, que alguns cronistas pretendem atribuir a propinação de veneno. Disto dependeria o avelhentado parecer que sua fisionomia apresentava nos últimos tempos, tanto em contradição com os poucos anos que vivera? Ou seria antes este precoce envelhecimento devido à mágoa profunda com que em 1491 viera de súbito enlutá-lo a infausta morte do filho?
Descansam na igreja da Batalha suas relíquias a par de todos os outros príncipes da casa de Aviz até àquela época falecidos.

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novembro 01, 2003

D. João II (1ª parte)


Subia definitivamente ao trono o vulto mais importante desta dinastia, - o mais conspícuo talvez mesmo na série toda dos reis de Portugal.
E efectivamente, se D. João I nos encanta como o tipo cavalheiresco do paladino, seu bisneto D. João II maravilha-nos como o tipo grandioso do político consumado; um deles poderá ser – aurora que desponta coroada de risonhas esperanças; o outro é já o sol esplêndido em pleno meio-dia com toda a sua vivificante magnificência. Andou a história acertadamente chamando a el-rei D. João II o Príncipe perfeito.
A energia com que tratou de fazer vergar a indócil prosápia dos nobres, - a indomável coragem com que afrontou seus próprios parentes que contra ele conspiravam, tais como o duque de Bragança (a quem mandou degolar na praça de Évora) e D. Diogo duque de Viseu, seu primo e cunhado, a quem o próprio monarca apunhalou nos paços de Setúbal, - finalmente a habilidade táctica com que, derrubando os privilégios da nobreza, centralizou na coroa a autoridade suprema, - tudo isto faz de D. João II um príncipe excepcional, e um vulto verdadeiramente importantíssimo.
Política hábil, de vistas sagazes, e penetrantes, D. João II, quando Castela, expulsava ineptamente do seu território os judeus perseguidos pela intolerância da Inquisição, tinha o bom senso de os acolher benevolamente, como quem sabiamente pensava que acolhia com eles o capital, a ciência, as artes, a indústria, o trabalho.
E, se há quem deva verdadeiramente aureolar-se com a glória de haver dado todo o alcance e desenvolvimento às empresas marítimas inauguradas pelo infante D. Henrique, este foi sem contestação alguma D. João II.

Para os recém chegados a este blog, esta é a transcrição de uma História de Portugal, da colecção Biblioteca do Povo e das Escolas; editor David Corazzi, Lisboa, 1881

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