Amigo,
Não me culpe pela falta de resposta à sua última carta, que me obrigava a agradecer-lhe expressões afectuosas, e prometidos obséquios. Tem-me corrido cortada de embaraços a vida.
O contentamento do coração não basta. Reluto sempre contra a conspiração desta gente que me cava abismos adiante de todos os passos. Quer um traço da vilania destes cafres? Andou uma comissão ad hoc por portas, pedindo aos subscritores do Mundo-Elegante que se despedissem. A intenção é cortar-me os recursos que me provinha daquele jornal.
Querem render a praça pela penúria, e eu por fim espero, parodiando o alcaide de Coimbra, enviar-lhe não uma truta, mas uma... porra. Desculpe o arredondamento do período, que é menos decente que eufónico.
Tenho, entretanto, escrito algumas tiras do Filosófico, na esperança de que o meu amigo estará no seu propósito.
Segundo me dissi, deve estar brevemente no Porto. Então lhe contarei os sucessos desta penosa existência, que ofereço aos infelizes para que se consolem.
Goze as venturas do Ermo, e creia que os maus momentos da solidão são mais saborosos que os melhores deste viver em que a morte se afigura uma consoladora perspectiva.
Do seu verdadeiro amigo
Camilo Castelo Branco
Meu caro Vieira,
Era minha tenção dar do Sanches uma notícia biográfica mais graúda, coisa de polpa e corume, que denotasse literato que assobia a cada frase uma pitada de vinagrinho. Falta-me a saúde e a paciência. Escrevi essas poucas tiras, com as quais me desquito da promessa, e o meu amigo, por necessidade, me desquitará também, ainda que não goste delas.
No correio de amanhã ou depois hei-de mandar-lhe uma prosa da minha A. A. E veremos se lhe posso arrancar uma poesia. Se forem a tempo, publique-as no 1º número.
O título do opúsculo do Sanches creio que deve ser “História, e causa da decadência dos bons estudos.” Verá no artigo que mando que julgo apócrifo o título que traz o manuscrito. Tenha cuidado com a ortografia, e não se canse de rever as provas do romance.
A Foz está intolerável. Começam a confluir as Felizardas com os primeiros almudes do mosto no saburroso estômago.
Chove tanto, que eu já não saio à rua sem colete de salvação.
Que fazes tu por aí? Dá-me notícias do carolo na primeira revista.
Até amanhã ou depois.
Teu dedicado amigo
Camilo Castelo Branco
Foz, 19 de Outubro de 1859
Meu caro Vieira de Castro,
Uma pergunta de rasgada franqueza como a nossa amizade a autoriza.
Eu preciso até 15 de Setembro da metade da quantia convencionada pelo romance. Entrego então os primeiros capítulos e receberei o restante, concluída a coisa.
Poderá a empresa do Ateneu dar-me impreterivelmente aquela quantia no dia designado?
Se não pode, necessito de aplicar-me a outra publicação para poder naquele dia ter o dinheiro que disse.
Responda ao seu
amigo sincero
Camilo Castelo Branco
12 de Agosto de 1859
Meu romancista(1),
Acho bom o título que lembrou.
O jornal há-de indispensavelmente ter coisa grave que explique aos pechosos o circunspecto nome que tem. Eu de mim estou tão desimaginoso que já nem sei onde irei esgravatar títulos para quinhentos volumes que trago na cabeça.
Aquela mártir já não está no convento(2), e parece que ressurgia ao ar puro das florestas do Minho com o seu amigo do coração ao lado.
Sou menos, muito menos infeliz, mas de qualquer modo seu do coração
C. Castelo Branco
(1) Este tratamento deve-se a uma provável incursão de Vieira de Castro na ficção literária.
(2) Refere-se à saída de Ana plácido do Convento da Conceição, em Braga.
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Como disse anteriormente, era indiscutível a grande amizade que unia Camilo a Vieira de Castro. Trocaram abundante correspondência e Vieira de Castro nunca se negou a minorar os apuros de que o amigo foi pródigo, dando-lhe inclusive guarida na sua casa.
As cartas de Camilo a Vieira de Castro foram publicadas pela primeira vez em 1931, com prefácio e notas de Júlio Dias da costa, na Livraria Editora Guimarães & C.ª, de Lisboa e republicadas neste livro(1) do qual vou transcrever.
Estas são interessantes, não só para traçar o perfil da figura que estamos a tratar, mas também aspectos da vida do nosso grande romancista.
(1) Fernando Moniz Rebelo,“J.C. Vieira de Castro”, Câmara Municipal de Fafe, 1993
“Em seguida, o senhor vice-reitor declara nula a primeira decisão, e, concluída a segunda, o senhor doutor Barjona sai não só aprovado no merecimento absoluto, mas no merecimento relativo!!!
Qual dos dois factos será mais censurável? A imprensa responderá por mim.
Agora antes de concluir esta minha simples declaração, devo confirmar duas linhas, que aí ficam acima, e prevenir a continuação de uma interpretação falsa que alguém tem dado às minhas palavras, quando me dirigi aos senhores Forjazes e Adriano Machado.
A ciência, a moralidade e independência destes cavalheiros, geralmente reconhecidas, calar-me-iam a voz, quando mesmo eu tivesse a fraqueza de subjugar o meu pensamento a uma intenção pecaminosa. Que não quero eu lembrar aqui a ingratidão indesculpável de que seria criminoso, se proferisse uma só asserção menos honrosa contra os excelentíssimos senhores Adrião e Diogo forjaz, de quem já recebi em dois dos meus actos universitários encómios porventura acima do meu merecimento. Tremo até de o recear.
Agora resta-me cumprir um dos meus desejos, pedindo a Deus com todo o fervor de minha alma, para que na carreira da minha vida me proporcione momentos de gozo inefável como os que ele me concedeu na noite de 29 de Maio, em que eu recebia milhares de abraços de verdadeiros amigos, quando fortuitamente apareci no lugar em que uma grande parte da academia acabava de manifestar o desejo de me ir felicitar com uma banda de música, o que ela não efectuou por causa do receio de me comprometer.
Colegas, o amigo, que sabe calar deste modo as expansões da sua alma, é duas vezes amigo.
Afeições destas, arreigadas assim, não devem morrer nunca.
É o que eu posso dar-vos – a promessa imorredoura do que o homem tem de mais santo.”
José Cardoso Vieira de Castro
Só a título de curiosidade, no ano em que esta carta foi escrita, Augusto César Barjona de Freitas já era Ministro do Reino! (Nota do autor do blog)
“Não faço comentários, nem quero aqui lembrar as contradições entre este modo de proceder e o da mesma faculdade, quando o ano passado decidia o contrário. A imprensa falará por mim, e tão fortemente como a crença, que eu nela deposito. Incumbe-me só apresentar o facto, para que o público sancione. Depois de proferida tão inclassificável sentença, foram rápidos os sinais de desaprovação da academia, claramente manifestados por uma pateada e sussuro. Não venham porém os caudilhos da velha sociedade taxar estupidamente de rapaziada o que é tão nobre e louvável; porque a esses calaremos injustas arguições, quando lhes dissermos que as primeiras provas de indignação partiam do corpo catedrático das faculdades da Filosofia e Matemática.
Foi então que eu me levantei, e, voltado para a Faculdade de Direito, ergui a minha voz para manifestar um pensamento inoculado em toda a academia. Depois de dar àquele procedimento o seu verdadeiro nome, censurei a faculdade, porque havia insultado o corpo académico, com uma decisão, que era uma ofensa à sua inteligência, e ao direito que lhe competia de ajuizar tais actos. Disse depois que a academia folgaria de ver em toda a faculdade homens como os senhores Forjazes e Adriano Machado, que não podiam de modo algum tomar parte numa infâmia que degradara até à mais baixa posição o primeiro estabelecimento científico do país, e seí pedindo ao corpo académico que me acompanhasse nas demonstrações de ressentimento por tão injustificável proceder.
Tive então a glória e satisfação de ser freneticamente apoiado pela academia e digníssimos lentes das faculdades de Matemática e Filosofia, bem como a de ver em alguns dos membros da faculdade de Direito sinais bem evidentes da sua indignação.
Levantou-se depois o senhor doutor Seco, que tem granjeado no curto espaço do seu magistério uma geral simpatia, e, indignado também, despediu-se da votação. O senhor doutor Adriano Machado procedeu igualmente, e o senhor doutor Mexia Salema teve a louvável generosidade de propor uma votação nominal.”
“Senhor redactor. - Quisera eu ser o último e nunca o primeiro a entrar num novo caminho, que há alguns dias aguarda a imprensa inteligente, proba e independente.
Todavia a razão fala mais alto que o coração, e eu não podia escravizar à minha vontade um dever, que me impunha a minha honra.
É uma explicação a três dos meus mestres, uma satisfação ao público e os mais vivos protestos de um reconhecimento eterno a todo o corpo académico, de que me prezo ser membro.
O dia 29 de maio era esperado ansiosamente por toda a cidade de Coimbra. O veredictum, que a Faculdade de Direito tinha de pronunciar então, ou devia ser a confirmação revoltante de uma infâmia, que se lhe atribuía, ou um desmentido solene.
E o público tergiversava. E tinha razão.
Eram duas horas da tarde, creio eu, quando aquela faculdade ia decidir da aprovação ou reprovação dos candidatos às cadeias vagas da mesma faculdade. Mui respeitável sem dúvida era o concurso de espectadores, que se achava na Sala dos Capelos. Além do imenso número de académicos, nunca os doutores se viram tão ricos de talentos nem tão brilhantemente assistidos. As faculdades de Medicina, Filosofia e Matemática estavam ali representadas por todas as suas inteligências superiores. O silêncio respeitoso com que se ouvia o senhor Augusto César Barjona de Freitas era demasiado eloquente e traduzia as intenções de tão numeroso auditório. Segredava-se em diversas partes que a Faculdade de Direito menosprezaria a sua dignidade para cevar uma vingança mesquinha contra S. Sª, e que nem o seu talento, nem os seus conhecimentos, nem a opinião pública lhe fariam vacilar o pulso.
Não o acreditava eu porém, e creio que a maior parte da academia repelia com desprezo tão revoltante baixeza, porque as grandes cobardias são apenas concebíveis para os muito cobardes; enganava-me. Aqueles períodos sonoros, graves eloquentes e ao mesmo tempo tão impregnados dum agudo ressentimento por uma injustiça, que se havia feito a S. S.ª, falavam muito aos meus dezoito anos, mas eram impotentes contra o gelo de uma cabeleira branca, que escondia um cálculo infame.
Procede-se enfim á votação, e o senhor doutor Barjona aparece reprovado no merecimento absoluto!!!”
A primeira intervenção notória de Vieira de Castro deu-se quando ele era quartanista na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra.
Nesse ano (1857), no dia 29 de Maio, decorria um concurso para professor da Faculdade de Direito na sala dos Capelos. Um dos concorrentes era o muito admirado César Augusto Barjona de Freitas, que, por isso mesmo, atraiu muita gente.
Para grande espanto da multidão que assistia, Barjona de Freitas foi reprovado, o que provocou grande alvoroço entre os presentes. No meio de toda esta confusão, Vieira de Castro levanta-se e faz um discurso que teve como extraordinário efeito a que houvesse uma segunda contagem dos votos. E, desta feita, Barjona de Freitas foi aprovado com merecimento absoluto e relativo.
No entanto, esta intervenção do ousado estudante custou-lhe, no dia seguinte, a perda do ano lectivo devido à não justificação de duas faltas que estavam devidamente justificadas.
Esta questão assumiu tais proporções que teve mesmo a intervenção do Rei.
Vamos ver como Vieira de Castro relata, mais tarde, este acontecimento a um redactor. Pela extensão da carta, ela será dividida em três 'posts'.

Vasco Pulido Valente, em 2001, publicou o excelente livro “Glória”, sobre José Cardoso Vieira de Castro. Este livro foi um magnífico trabalho biográfico e, acima de tudo, um retrato impressionante da sociedade da época.
Da sua leitura ficou-me apenas um amargo de boca, não ter acesso às fontes. Fiquei com vontade de conhecer alguns discursos, cartas e intervenções parlamentares de tão curiosa personagem.
Quando já quase tinha esquecido o assunto, deparei-me com o livro “J.C. Vieira de Castro” de Fernando Moniz Rebelo, publicado pela Câmara Municipal de Fafe, em 1993. Este livro, que não é propriamente uma velharia, traz muitas das fontes que ambicionava conhecer. Serão algumas dessas fontes que irão ser aqui transcritas.
Para aqueles que nunca leram o livro “Glória”, José Cardoso Vieira de Castro foi um dirigente académico, jornalista, escritor (amigo íntimo de Camilo Castelo Branco), político (que alcançou alguma fama como tribuno). Mais tarde, criminoso e degredado!
São intervenções desta personagem que vamos agora tratar...